A Beta de Baependi

Uma negra, analfabeta, filha de escravos e brasileira do século XIX é a mais nova beata da Igreja Católica, reconhecida como tal oficialmente às 15 hs do dia 04 de maio último, em Baependi, sul de Minas. Apesar do registro de nascimento constar o nome de Francisca de Paula de Jesus como a pessoa merecedora desse título primeiro para galgar os altares e a veneração do povo, ninguém a conhece como tal, mas simplesmente como nhá Chica, forma reduzida de sinhá, senhora. Francisca, pobre e sem filhos, tinha ainda outro epíteto bem popular: mãe dos pobres. Com tais qualificações e referências, pouco se poderia falar da vida dessa nossa candidata a santa, não fossem os milagres que já coroam sua história e a celeridade com que seu processo de beatificação – e possível santificação – tem sido conduzido pela Igreja. Nascida em 1810, num distrito de São João Del Rei, MG, faleceu aos 14 de junho de 1895, depois de uma vida sem muitos atributos que não fossem as orações, aconselhamentos (que fazia até aos membros da corte portuguesa) e muita solidariedade e ajuda aos pobres. Com uma pequena herança recebida de um irmão, militar da Guarda Nacional, construiu uma capela dedicada a Nossa Senhora da Conceição e dividiu o restante com os pobres. Nela, desde 1988, repousam seus restos mortais. Vários foram os milagres atribuídos a essa humilde serva de Deus. Ainda em vida, quando construía sua pequena capela, deram-lhe de presente um órgão. Durante o transporte de São Paulo até sua pequena cidade, o órgão se esfacelou por completo. Sem saber como consertá-lo, apenas rezou e convidou o povo para inaugurá-lo. Na hora exata prevista por ela (15 hs), o órgão funcionou com perfeição, depois de ser restaurado com peças e madeiras adquiridas quase que milagrosamente. Mas seu primeiro milagre reconhecido oficialmente foi a cura da professora Ana Lúcia Meireles, 65, que sofria de um problema congênito no coração. Desenganada, momentos antes de uma cirurgia, comprovou-se que havia sido curada depois de um pedido à alma de Nhá. Bento XVI reconheceu esse milagre no dia do aniversário de Ana Lúcia, 28 de junho de 2012. “Um presente dos céus”, disse ela. Mais um milagre, e teremos o reconhecimento oficial de sua santidade. No entanto, um fato extraordinário já coroa a história dessa alma. Em 1998, por exigências do processo de beatificação e possível canonização, seu corpo foi exumado para fins de estudo. Ao abrirem seu túmulo, na presença do bispo de Campanha, MG e da responsável pelo processo junto ao Vaticano, irmã Célia, um intenso perfume de rosas foi sentido por todos. – Hoje você está bem perfumada, irmã Célia? – disse o bispo. – Não estou usando perfume, não, D. Diamantino. Este cheiro vem do túmulo! E todos puderam acompanhar os restos mortais daquela pobre mulher, impregnado por intenso e agradável perfume de rosas. Ou, como bem diz a poesia: Fica sempre um pouco de perfume nas mãos que oferecem rosas. A vida simples e sem grandes louros é princípio de santidade. É a vida dos grandes santos. Santidade que hoje nos enleva com seu perfume e sua simplicidade. Santidade que compete a todos. “Ela podia ser simples, mas acompanhava tudo e tinha um sentimento de cidadania muito forte”, diz Maria do Carmo, uma das responsáveis pela sua biografia no processo. E completa: “Apesar de viver em reclusão, no dia da abolição ela se juntou ao povo da cidade para comemorar”. Pobre, de descendência afro, filha da escravidão, analfabeta que era, soube viver, vencer e comemorar. Tornou-se conselheira do povo e dos que conduziam o povo. Tornou-se voz dos oprimidos. Cantou sua liberdade e hoje é aclamada como modelo das servas do Senhor. Isso é ser cristão, santificar-se. Essa deveria ser nossa vocação cristã. WAGNER PEDRO MENEZES wagner@meac.com.br

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