Bode expiatório

Um momento de transição cria expectativas e apreensões. Aquilo que é desconhecido vem sempre envolto em uma embalagem de surpresas, capazes de proporcionar alegrias ou decepções. Num primeiro momento, o medo toma conta, cria fantasmas, engessa novos passos. Mas, à medida que desvencilhamos seus nós e mistérios, eis que nos sentimos capazes de continuar na caminhada com ânimos renovados. Na vida, qualquer mudança exige conhecimento de metas. No tempo das grandes conquistas empreendidas pelo antigo povo de Deus, antes de novas empreitadas, fazia-se a purificação dos pecados através de oferendas e sacrifícios rituais. Um desses ritos era a imolação de animais em altares que simbolizavam o trono de Deus na Terra. Além de touros, usava-se também um bode “sem defeito” que servia “para fazer a expiação do altar”. Individualmente, havia também a tradição de ‘colocar’ sobre o bode os pecados apontados pela consciência e expulsar o pobre animal para o deserto, onde iria padecer até a morte, carregando sobre si os pecados que não eram seus… Daí o termo: bode expiatório! Ainda bem que veio Jesus e tomou para si essa incumbência. Caso contrário, estaríamos complicados com as instituições de defesa dos animais. Ou mesmo, já não haveria bodes suficientes. Recordo essas tradições num momento histórico. Qualquer nova empreitada humana, ou mudança, ou retomada de ânimos, ou avaliações e planejamento, requer sim a purificação e planejamento consciente, longe das amarras que erros passados ainda possam provocar. Não vamos recorrer aos infelizes bodes e inocentes cordeiros ou indomáveis touros que vertiam seus sangues ou davam suas vidas para apagar pecados alheios. O Cordeiro de Deus já purificou o templo que somos com toda galhardia e magnificência possíveis, quando de sua dádiva crucial, sua prova de amor por todos nós. Hoje, como membros de um corpo místico, imolado, mas ressuscitado e atuante na sua ação libertadora e purificadora, nada mais pode engessar os passos da Igreja. Aqueles que se desviaram dessas metas, que imolaram aos ídolos e não ao Deus único, que desvirtuaram a pureza do santuário e dele fizeram um “covil de ladrões”, que macularam o templo com a vulnerabilidade dos inocentes, a eles, somente a eles se imputará as maldições outrora compatíveis ao triste e infeliz bode… O Bode que rejeitou a graça, esse sim, há de continuar pastando no deserto de muitas tribulações. Porque só estes ainda merecem carregar o peso do pecado humano, o fardo de um futuro incerto, trágico, sem Deus, sem qualquer esperança. “Não poderão mais aproximar-se de mim para exercer diante de mim as funções sacerdotais, nem para tocar em minhas coisas santas, nem para entrar no lugar santíssimo: mas carregarão a vergonha que lhes mereceram suas práticas abomináveis.” (Ez 44,13). Essa é a certeza que nos tranqüiliza: no altar onde o mais perfeito dos cordeiros derramou seu sangue nenhum pecador humano poderá reinar. Para aliviar tensões, eis um fato quase cômico. Fazia eu um trabalho missionário no interior do Piauí. Num daqueles empobrecidos municípios brasileiros, eu, pobre e simples mortal, acabei recebido como uma autoridade de respeito. Fazia-me as honras o prefeito da cidade, que também era o único médico da região. Ciceroneou-me com atenções e mimos, mostrando suas obras, seu hospital, sua casa que se destacava das demais por ser a única coberta de telhas, não babaçu. A certa altura, deixou escapar: “Sabe, Wagner, aqui sou o verdadeiro bode respiratório desse povo”. Pensei com meus botões: “Respiratório? Não seria expiatório?” Mas consenti naquele erro, pois quem não alivia os fardos do povo – e tem autoridade sobre ele – um dia vai respirar com dificuldades os ares quentes que emanam das consciências pesadas. WAGNER PEDRO MENEZES wagner@meac.com.br

Compartilhar:

Compartilhar:

Mais conteúdo

Enviar Mensagem