Demolições e construções

Uma das grandes capacidades humanas é a arte de construir e destruir. No campo imobiliário isso hoje se dá com rapidez nunca antes imaginada. Estudei, por exemplo, em um colégio ultramoderno para a minha época, cuja construção levou décadas. Era o Colégio Diocesano Santo Antonio, edificado pelos padres do PIME, que se orgulhavam daquela obra em Assis, considerada durante anos o maior colégio particular do interior paulista, quiçá do Brasil. Venceu a especulação imobiliária e hoje o vejo quedar-se rapidamente, vencido por retro-escavadeiras e pás mecânicas, que em poucos dias o colocam abaixo. Diante de seus escombros, parte da vida estudantil de muitos sucumbe com muitas lembranças e saudosismo daqueles áureos tempos. Ah, Pe. José Contini e auxiliares, ainda bem que foram poupados dessa triste visão! Mas, paralelamente a essa violência a um patrimônio histórico de minha cidade, vi também o sucesso de uma construção no mínimo fantástica. Instada a desocupar aquele imóvel com vários litígios judiciais, a faculdade que ali funcionou provisoriamente, se viu obrigada a construir seu próprio prédio. Então, o que parecia impossível, surgiu a toque de caixas aos olhos de muitos incrédulos. Em três meses uma construtora da cidade ergueu um novo prédio para a faculdade desalojada, cuja construção é hoje orgulho na cidade, não só pelas linhas modernas de sua arquitetura, mas também pelo patrimônio que representa à cultura e educação de muitos. Ganhamos um patrimônio arquitetônico, mas perdemos um patrimônio histórico. Todavia, esse recorde na arte das construções e demolições pouco ou quase nada representa diante das novas técnicas que grassam por aí. Recentemente, a título de ensaio, uma construtora chinesa ergueu um prédio de trinta andares na província de Hunan. Nada de extraordinário se essa construção não fosse edificada em apenas 15 dias! Isso mesmo: 30 andares em 15 dias! Pois foi apenas um “ensaio”, já que a mesma companhia acaba de anunciar ao mundo que irá construir o maior edifício do mundo em Changsha, na mesma província chinesa. Alcançará os 837 metros de altura, com 220 andares, 104 elevadores e abrigará escola, hotel, restaurantes, hospital e apartamentos para aproximadamente 17 mil pessoas. Será nove metros maior que o Burj Khalifa, nos Emirados Árabes, considerado hoje o mais alto edifício do mundo. Isso tudo com um detalhe: pretendem edificá-lo em apenas 90 dias, ao ritmo de cinco andares por dia. Deverá estar concluído nos primeiros meses de 2013. Quem viver verá. O que me espanta, nisso tudo, não é o fato em si – pois que a capacidade humana já provou não possuir limites quando há determinação e vontade – mas sim a incapacidade de muitos em enxergar nessas ações o poder que temos para vencer desafios. Não é uma mera questão de provar a supremacia de uma raça sobre a outra, ou o empreendedorismo maior ou menor de determinadas nações, pois que construir e destruir sempre foram verbos associados ao ser humano. O triste nesta história é não canalizar nossas forças para a construção de um mundo melhor que não seja só de pedra bruta e tecnologia pura. Escolas sucumbem às especulações, templos da modernidade e do comodismo despontam da noite para o dia, mas a educação básica, o respeito à individualidade, às tradições, a maiores gestos de fraternidade – e não competitividade pura e simples – é a construção mais urgente de que precisamos. E esse edifício não se destrói tão facilmente, nem se edifica num piscar de olhos. Porque o maior edifício do mundo ainda é o homem, a construção mais que perfeita da grande Obra de Deus. Sobra-nos um conselho talvez providencial: Não condenemos as audácias humanas. Muitas delas são positivas. Ou, como diria o apóstolo: “Se o seu projeto ou sua obra provém de homens, por si mesma se destruirá; mas se provier de Deus, não podereis desfazê-la”. Deixai-os! (At 5,38,39) WAGNER PEDRO MENEZES wagner@meac.com.br

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