CASA DA SOGRA

Não há como fugir da curiosidade que o título aqui desperta. Por experiência, definição, ironia, crítica ou mesmo rejeição, sabemos que a casa da sogra foi sempre sinônimo de encontros e desencontros familiares. Lá se forjam os pilares de uma família, mesmo que muitas vezes suas bases não estejam devidamente preparadas para a solidez que exigem. Lá, filhos, genros e noras, bem como netos e bisnetos, se espelham no exemplo dos mais velhos e moldam seus futuros à luz de um testemunho de vida, positivo ou negativo. É na casa da sogra que se desenha o futuro de muitos lares. Pois bem: foi na casa da sogra de Simão Pedro que Jesus buscou abrigo, um local para repousar momentaneamente, após um dia inteiro de pregações numa das sinagogas da região. Queria apenas um cantinho para refazer suas forças, mas lá também encontrou problemas. Sua anfitriã, a sogra de Pedro, estava acamada, ardendo em febre e sem coragem alguma para lhe fazer as honras da casa. Compreensivo e atencioso, Jesus se aproximou de seu leito, olhou-a com seu olhar sempre misericordioso, “segurou sua mão e ajudou-a a levantar-se” (Mc 1,31). Quase que instantaneamente, a febre sumiu. E ela se pôs a lhe servir os quitutes da casa. A história se espalhou como um rastilho de pólvora e, mal se tinha posto o sol daquele dia, “levaram a Jesus todos os doentes e os possuídos pelo demônio”. Mateus registra um detalhe sintomático: “A cidade inteira se reuniu em frente da casa”. Acabou-se o descanso do Mestre nazareno… Nada disso seria relevante, não fosse a presença de Jesus. Presença e ação. Ação e atração. Poderia ser um local qualquer, uma casa, uma praia ou mesmo, como era de seu feitio, um encontro casual no templo ou na rua. Para se obter uma bênção ou cura de Jesus, basta um encontro com Ele. A casa da sogra foi circunstancial, mas sua cura não. Foi necessário estender-lhe a mão, deixar-se levantar por Ele. Foi preciso reconhecer em si a graça alcançada e, “imediatamente”, se colocar a serviço. Aquela mulher, que hospedou Jesus em sua casa, soube valorizar sua presença, seu encontro com Ele. Obter a cura veio da alegria em bem servi-lo, face ao privilégio daquela visita. A febre do mundo não nos deixa entender muitos desses momentos em nossa vida cotidiana. Você já se perguntou quantas vezes Jesus buscou hospedagem em sua casa, em seu coração? Quantas vezes nossas vidas atribuladas e agitadas pelas circunstâncias que prostram nosso ânimo e coragem, nos fizeram indiferentes à presença de Deus nesses momentos? Quantas vezes não vimos sua mão estendida e deixamos de servi-lo com nova disposição? Não foram as lamúrias daquela velha senhora que se fizeram ouvir naquele leito febril, mas sim a alegria e gratidão pela visita ilustre. Aquela mulher não despejou reclamações e queixumes aos pés do Senhor. A presença de Jesus renova qualquer alma, mesmo aquelas que se deixaram dominar pelas febris ilusões dessa nossa casa comum, o mundo. Daquela casa Jesus saiu de fininho, durante a madrugada, para rezar e saudar um novo dia. Só então os donos da casa deram por sua falta, pois a alegria restaurada pelos milagres ali presenciados era maior que os detalhes de sua retirada estratégica. É assim mesmo. Cumprida a missão, é preciso seguir o caminho. Jesus continua entre nós, no deserto de nossas tribulações, no conflito de nossas enfermidades, marcando presença, realizando milagres, atraindo corações sedentos de vida nova. Quando o reencontraram, os discípulos lhe disseram: “Todos estão te procurando”! Você também?

WAGNER PEDRO MENEZES
wagner@meac.com.br

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