De formigas e cigarras

“Vede! Enquanto negligentes/ estão as cigarras cantando,/ vão as formigas prudentes/ trabalhando e armazenando”. Olavo Bilac transportou para a simplicidade de seus versos a preciosa fábula da formiga e a cigarra. Quem nunca a ouviu, em verso ou prosa? Quem já não encontrou paralelos na vida ao se deparar com a labuta acirrada de muitos e a vida ao bel prazer de poucos? Lá vem a velha cantilena do rico e do pobre, do capital e do proletariado, do trabalhador e do patrão, dirá você… Não, não é o que pretendo ao resgatar essa velha história de muitas gerações. Acontece que a retomo não por acaso, mas diante de um apelo, um chamado divino: “Eu, o Senhor, chamei-te realmente” (Is 42,6). Lá vem trabalho, dirá o acomodado, aquele cujas motivações de vida culminam sempre com seus fins de semana regados a muitas bebidas, samba, futebol ou praia. Epa, não desista agora… Também gosto desses hiatos de prazer e lazer, vez por outra. Afinal, ninguém é de ferro. Acontece que o Senhor nos chama, de quando em vez, para sermos “a luz das nações” ou mesmo “para abrir os olhos aos cegos” ou até para “tirar do cárcere os prisioneiros e dá prisão aqueles que vivem nas trevas”. (Ibd Is 42, 6-7). – Ora, ora, isso é lá comigo? A evasiva já nos diz tudo. Há muito mais cigarras cantando desculpas e louvando a vida sem outras preocupações que não sejam as próprias, do que formigas preocupadas com o inverno que assola e ameaça o mundo cada vez com mais ferocidade. Mas o verão também faz vítimas! Sim, é verdade. O extrativismo e a ganância humana sobre seu pobre planeta azul já dá sinais de alerta e coloca seus moradores em situações extremas, sem percepção do meio termo, da ponderação, do uso responsável – nunca negligente – das riquezas que seu Criador nos permite “trabalhar e armazenar” para o bem comum. Falta-nos a visão prudente dos que extraem da terra o seu sustento, mas não lhe rouba a sustentabilidade, as condições mínimas de recomposição, restauração. Então, a poucos o Senhor confia a tarefa de ser luz, iluminar novos caminhos, inspirar Nações, denunciar, profetizar. O ecossistema é solo sagrado, é dádiva divina, é a alma da mãe natureza. Como tal, merece nosso respeito, até veneração. Do solo dadivoso que sustenta nosso caminhar, dos mares infindos onde navegam nossos barcos ou das nuvens de algodão que abrigam sonhos e sentimentos dos esperançosos ou românticos, ou das brisas suaves que acariciam nossos corpos suados, cansados – não importa – são desses cenários e situações que muitas vezes o Senhor nos desperta “para abrir os olhos aos cegos”, para encantar suas criaturas com a poesia e a fábula do “milagre da vida”, o bem mais precioso neste fantástico planeta Terra. Todos, sem exceção, têm em vida a responsabilidade de construir um mundo melhor para todos. “Carrega cada formiga/ aquilo que achou na estrada; / e nenhuma se fadiga,/ nenhuma pára cansada”. Mas há os encarcerados. Não somente prisioneiros do sistema, mas também – e em maior número – os prisioneiros de si mesmos, do seu individualismo. Cantam a vida, enquanto o inverno não chega. Nada fazem de construtivo, conquanto seus lares, seus aposentos e suas almas cheiram a mofo – quando nunca enxergam além dos próprios interesses, as trevas de uma vida vazia, sem sentido, sem respeito a si e aos outros. “Recordai-vos todo dia/ das lições da Natureza:/ o trabalho e a economia/ são as bases da riqueza” – concluiu o poeta. Pobres cigarras sem futuro! Suas loas e seu eterno cantar, sem maiores afazeres, há muito deixaram de ouvir a voz que nos chama à responsabilidade: “Quem é, pois, o servo fiel e prudente que o Senhor constituiu sobre os de sua família, para dar-lhes o alimento no momento oportuno?” (Mt 24,45). Cuidado na resposta, pois às vezes temos mais de cigarras do que de formigas. WAGNER PEDRO MENEZES wagner@meac.com.br

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