DESEJO INTENSO

“Desejei muito comer com vocês esta ceia pascal, antes de sofrer” (Lc 22, 15). A partir da formulação desse desejo de Cristo, Papa Francisco inicia sua nova Carta Apostólica “Desiderio Desideravi”, (Desejei Ardentemente) sobre a formação litúrgica do Povo de Deus. Publicada no dia 29 de junho de 2022, dia de São Pedro e São Paulo, a nova encíclica chega num oportuno momento onde questões litúrgicas têm proporcionado discussões e posições antagônicas entre muitos segmentos do clero, dado a polarização de ideias e modismos que se observam dentro da Igreja. Uns muito adiante, outros retrocedendo ao passado. Uns excessivamente condicionados ao rito, outros negligentes na forma e conteúdo ou vazios da espiritualidade que o ato litúrgico requer. Então, que se restaure a essência desse banquete.

            Francisco reage ao indiferentismo sacramental, lembrando serem eles (os sacramentos) um dom de Deus, “porque todo dom, para ser dom, dever ter alguém disposto a recebe-lo” (3). Lembra-nos que a Ultima Ceia foi o ápice de todos os ritos sacramentais. “Ninguém ganhou um lugar naquela Ceia. Todos foram convidados. Ou melhor dito: todos foram atraídos para lá pelo desejo ardente que Jesus tinha de comer aquela páscoa com eles” (4). Portanto, quando vamos à Missa é porque o Senhor nos quer unidos ao redor de sua Palavra e nos alimenta com seu amor, com seu corpo e sangue transubstanciados. Nada ali é encenado, exibido simbolicamente, pronunciado para paredes indiferentes, mas “tudo dEle passou para a celebração dos sacramentos” (9). Porque “na Eucaristia e em todos os sacramentos é-nos garantida a possibilidade de encontrar o Senhor Jesus e de fazer chegar até nós a força do seu mistério pascal” (11).

            A Igreja, como tal, é presença viva do Corpo de Cristo no mundo. Lembra-nos Francisco: “O paralelo entre o primeiro Adão e o novo Adão é notável: assim como do lado do primeiro Adão, depois de tê-lo lançado em sono profundo, Deus fez surgir Eva, assim também do lado do novo Adão, adormecido o sono da morte na cruz, nasce a nova Eva, a Igreja” (14). E conclui: “O sujeito que atua na Liturgia é sempre e somente Cristo-Igreja, o Corpo místico de Cristo” (15).

            Não realizamos uma mera cerimônia decorativa, mas uma verdadeira ceia com a presença real do Senhor da Festa, o dono da casa, aquele que nos reuniu na sua graça, no seu amor. “O início de cada celebração me lembra quem eu sou, pedindo-me para confessar meu pecado e convidando-me a implorar a Maria sempre virgem, os anjos e santos e todos os meus irmãos e irmãs que rezem por mim ao Senhor nosso Deus” (20). Nosso Ato Penitencial nos lembra nossa indignidade. Esse “encontro com Deus não é fruto de uma busca interior individual por Ele, mas é um acontecimento dado” (24), não um ato simbólico, mas “a maravilha de quem experimenta o poder do símbolo” (26). Quem penetrar nesse mistério entenderá a razão de Deus sempre ocupar o primeiro lugar em nossas vidas. “A liturgia é a primeira fonte de comunhão divina, na qual Deus compartilha sua própria vida conosco” (30).

            O Papa reitera: “Recordemos sempre que é a Igreja, o Corpo de Cristo, que é o sujeito celebrante e não apenas o sacerdote” (36) “Não é autêntica uma celebração que não evangeliza, assim como não é autêntica uma proclamação que não conduz ao encontro com o Ressuscitado’ (37). Uma Eucaristia bem vivenciada é aquela que transforma nosso pão em “pão vivo descido dos céus”, mas também, segundo palavras de Leão Magno, deve “tornar-nos aquilo que comemos”. E bebemos…

WAGNER PEDRO MENEZES
wagner@meac.com.br

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