Embriagados pelo Evangelho

EMBRIAGADOS PELO EVANGELHO Eu era um vendedor de bebidas. Durante 18 anos assim mantive minha família, visitando diariamente quarenta pvs, bares e botecos mesmo. Em cada um deles “assinava o ponto” e também mandava uma dose para os santos. Imaginem como chegava a casa! A bem da verdade, nasci e cresci dentro de uma pequena fábrica de bebidas, o ramo de atividade de meu velho e falecido pai. Mas Deus tinha melhores planos para mim. Na infância, graças à religiosidade do pai, que era congregado mariano, ganhei de presente meu primeiro livro. Chamava-se “A História Sagrada”. Com o presente veio também uma obrigação: ler toda noite um pequeno trecho e comentá-lo. Desse estranho presente e rígida disciplina familiar nasceu minha religiosidade. Acabei entrando para um seminário e durante cinco anos ali aprimorei tudo aquilo que já havia lido na maravilhosa história da Salvação. Mas ainda não eram esses os planos de Deus. Logo as seduções do mundo falaram mais alto. Abandonei tudo em troca dos prazeres da juventude. Uma bela menina cruzou meu caminho. Foi amor à primeira vista. Tanto que, contrariando os planos da família e até do vigário que ainda via em mim um lampejo de vida sacerdotal, roubei a menina. Casamo-nos às escondidas, eu com 19 e ela com 17 anos. Começou a luta pela sobrevivência. A princípio era tudo romântico, mas, à medida que chegavam os filhos, o sapato apertava e as decepções se somavam. Como vendedor de bebidas, o consumo e o vício foram as alternativas de fuga mais que evidentes. Atolei-me por completo no álcool e chegamos às portas da separação. Mas, Deus, o cara mais teimoso do Universo, ainda tinha planos para mim. Não bastassem tantos e tantos sinais que me mandava, como a dizer “Preciso de Você”, pregou-me uma peça inusitada. Chegava de mais um dia de trabalho com o “caco cheio” e disposto a dar um basta na minha vida conjugal, quando, no trevo de minha cidade (Palmital), deparei-me com um pergunta em letras garrafais, estampada num out dor imenso: Para onde vais? Era o início da campanha da fraternidade de 1980, cujo lema mereceu naquele ano um cuidado maior de divulgação naquela paróquia. Mas a pergunta calou fundo em meu coração: Para onde vais? Do trevo à minha casa processou-se minha mudança de vida, minha conversão definitiva. Naquele mesmo ano, que consideramos o nosso ano da graça, fizemos um ECC, onde Célia e eu aprontamos com nossas crises e dilemas, exigindo reforço na equipe de oração daquele encontro e atenção quase exclusiva do diretor espiritual. Mas saímos fortalecidos. No mesmo ano, o papa João Paulo II veio ao Brasil e não é preciso dizer que seguimos seus passos e acompanhamos seus sermões pela TV como um verdadeiro retiro midiático que muito nos encantou e renovou nossas forças. Quase de imediato, no mesmo ano aconteceram as missões redentoristas em nossa cidade e lá estávamos, eu e Célia (além dos três filhos) bebendo avidamente daquela fonte de espiritualidade. Mas o melhor estava por vir… Foi a descoberta do Meac, o grupo de leigos missionários do qual hoje fazemos parte. Minha esposa já narrou nesse espaço a forma maravilhosa como isso se deu, no seu artigo “Foi assim que começamos”. Sim, Deus tinha maravilhosos planos para nós, como tem para todos aqueles que dele tomam conhecimento. Deu-nos uma responsabilidade maior, a vida missionária, da qual nos orgulhamos apesar de tantos limites e indignidade, mas, como servos inúteis, ainda ousamos pedir: “Dizei-nos uma só palavra (Para onde vais?) e seremos salvo”. Porque só tua palavra é capaz de nos embriagar sem perder a razão. WAGNER PEDRO MENEZES – Meac – 40 anos

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