A RENDA DA VOVÓ

Falando em audiência aos bispos e padres da Sicília (9.6.22), no Vaticano, Papa Francisco surpreendeu o mundo com um puxão de orelha com endereço certo, pois referia-se a um modismo recorrente, que se espalha pela Igreja. Trata-se do exagero de panos e vestes litúrgicas que domina grande parte do clero católico. “Falo claramente: caríssimos, ainda a sobrepeliz, o barrete…, mas onde estamos? Sessenta anos depois do Concílio! Um pouco de atualização inclusive na arte litúrgica, na ‘moda’ litúrgica…”

            Essa observação já era esperada, pois que há muito Papa Francisco vem demonstrando aversão aos excessos e ao requinte de muitas vestimentas sacerdotais, inclusive as que é obrigado a usar como sumo pontífice. Para ele, o velho sapato que usou em sua “posse” pontifical ainda deixa saudades. Para ele, tudo seria mais cômodo, simples e simpático sem os exageros que hoje se observa, pois “o hábito não faz o monge”, mas “a pompa veste um rei” e, na Igreja, só um é o verdadeiro sacerdote, profeta e rei. Esse múnus é próprio Daquele que governa a Igreja, Cristo, o Filho de Deus, conquanto à figura sacerdotal da tribo de Levi restou apenas e tão somente o oficio da servidão, o trabalho em favor do povo. Nada de principesco. Quando muito alguns panos e toalhas para lavar e secar os pés cansados desse povo sofredor. Mas longe estamos dessa realidade!

            Disse Francisco: “Eu não gostaria de terminar sem mencionar algo que me preocupa muito. Eu me pergunto: como vai a reforma começada no Concílio? Como vai entre vocês? A piedade popular é uma grande riqueza e devemos preservá-la, acompanha-la para que não se perca. Também devemos educa-la. Sim, tudo bem às vezes trazer um pouco da renda da avó. É para homenagear a avó, não é? Vocês entenderam tudo, não é mesmo? É bom homenagear a avó, mas é melhor celebrar a mãe, a santa mãe Igreja, e como a mãe Igreja quer ser celebrada…” Percebe-se claramente um tom de ironia e tristeza nessas palavras. Não é esse modismo reflexo da reforma conciliar. Ao contrário. “Que a insularidade não impeça a verdadeira reforma litúrgica que o Concílio propôs. E não permaneçam imóveis!”, quase gritou o papa.

            Nesse apelo à simplicidade, Francisco busca maior aproximação com o povo. Há de se repensar esse modismo que toma conta, que faz de muitos seminaristas atuais aspirantes ao luxo e à beleza de rituais cheios de pompas, mas vazios de conteúdo evangélico. O papa ainda foi além. “Prestem atenção ao pregar o evangelho, porque as pessoas querem substância. Um pensamento, um sentimento e uma linguagem e elas carregam isso durante toda a semana. Não sei como os padres sicilianos pregam, se pregam como sugerido na “Evangelii Gaudium” ou se pregam de tal forma que as pessoas saem para fumar um cigarro e depois voltam…” Triste constatação de uma realidade mais que comum!  Aqui a renda bem trabalhada das avós é apenas um detalhe de algo muito maior e sintomático. Se o hábito ainda faz realmente um monge, este é um detalhe ainda secundário. A visão e compreensão maior da figura sacerdotal, antes de sua exterioridade, está na vivência evangélica por excelência, na pobreza e humildade herdadas daquele que serviu a todos, sem qualquer vaidade pessoal, sem luxo, sem ostentação. E se deu ao direito de ainda perguntar: “Quem diz o povo que sou?” Um príncipe, um herdeiro real? Ou um Batista qualquer, um Elias da vida, um profeta a mais a clamar no meio do povo… Esse era o Cristo, o homem de uma única túnica.

WAGNER PEDRO MENEZES
wagner@meac.com.br

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