AS ASAS DAS GALINHAS

A superproteção maternal é hoje um problema. De instinto que era, tornou-se caso de polícia. Diante de uma sociedade aglutinadora de talentos e excludente por excelência, principalmente para aqueles que não preenchem requisitos básicos que atendam a engrenagem da competição, da produção, do mercado, a educação para o trabalho deixou de ser um problema vocacional, mas de vida ou morte. Chora menos quem pode mais. O velho terreiro familiar há muito ultrapassou os limites do quintal da casa. Ladrões de galinhas se sofisticaram: poupam as donas dos ovos à espera de suas ninhadas, hoje genética e qualitativamente melhores. Perdoem-me se baixo tão drasticamente o nível, para lhes falar em parábola de um problema social, portanto humano. Uma questão de sobrevivência! Diante da voraz competitividade por um lugar ao sol – parece-nos! – a vida humana se assemelha mesmo a um galinheiro sem limites, onde cada qual tenta assegurar seu milhozinho, sua ração diária. O mundo tornou-se assustadoramente classista, elitista. A individualidade está acima do interesse coletivo, do bem comum. A educação, voltada para o mercado de trabalho, prioriza talentos pessoais, sobrepondo-se à visão comunitária, aos projetos sociais, ao bem estar outrora planejado sob o ponto de vista coletivo, não individual. Cresce o conceito do “cada um pra si”, do “salve-se quem puder”. Uma perigosa encruzilhada! Estamos diante de um fenômeno que muda drasticamente as regras da convivência humana. Suas conseqüências serão nefastas ao futuro da coletividade, como igualmente destruirão por completo muitos dos valores tipicamente humanos. A religião será posta nos sótãos de muitos lares, pois a doutrina do bem comum já não terá sentido. O coletivo, o que era de interesse social, perderá espaço para manutenção do interesse pessoal. Uma ameaça ao equilíbrio desse galinheiro que ocupamos. Um caos pleno, apocalíptico! Com isso, muda-se a “postura” das galinhas. Entendam bem essa ironia: qualidade acima de quantidade. Positivo? Nem tanto, se considerarmos que a qualidade educacional e familiar sempre se pautou e sempre deveria ser pautada pelas regras da convivência. Pela sua intensidade, se mede sua qualidade. Um mundo que se quer mais justo e humano, não pode ser edificado sob as vistas do individualismo. Já conhecemos as conseqüências desse comportamento. O próprio Cristo o denunciou em sua época, quando escribas e fariseus colocavam o indivíduo, a classe política, os interesses de grupo acima de tudo que fosse de interesse coletivo. “Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas”, bradou Jesus. A educação só será libertadora e minimamente humana, quando longe da visão individualista, dos interesses pessoais. Paulo Freire, grande educador, já dizia: “Os valores cristãos (como a pessoa humana e seus direitos fundamentais, seu encontro com o outro, o “bem comum”) afastam definitivamente os males do egoísmo e do individualismo… é antes um ideal projetado no tempo, é revolução do homem novo, é exigência de justiça em todos os planos, é condenação das estruturas iníquas”. Estruturas como aquelas que Jesus detectou em Jerusalém. E exclamou: “Quantas vezes eu quis reunir teus filhos, como a galinha reúne seus pintinhos debaixo de suas asas… e tu não quiseste! Pois bem, a vossa casa vos é deixada deserta” (Mt 23,37-38). No aconchego dos lares modernos cresce a desertificação do egoísmo, do individualismo. Afastam-lhes as asas da proteção divina. WAGNER PEDRO MENEZES

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