Emoção na ONU

EMOÇÃO NA ONU Tinha apenas 11 anos. O que mais queria na vida era apenas estudar, ser gente, ser livre, ser, quem sabe, médica um dia. Mas fanáticos religiosos não compreendiam tamanha ambição para uma simples menina, uma mulher como tantas… Não aceitavam sonhos de independência e crescimento intelectual no mundo feminino. Então, a menina sonhadora passou a escrever tudo o que sentia em um blog – o grande instrumento de denuncia e indignação que passou a usar contando tudo o que via a seu redor. Seu país, o Paquistão, fervilhava com uma insurgência de um grupo fundamentalista islâmico, o Talibã. Para esses, lugar de mulher era na cozinha. Quando não, na cama. Para ganhar um cessar-fogo, o governo paquistanês aceitou um acordo com os terroristas que dilapidavam seu país: nenhuma menina poderia receber qualquer instrução ou formação intelectual. A menina que queria ser médica, inconformada, pôs a boca no trombone. Não só teimou em continuar seus estudos, como também incentivava suas companheiras a perseverarem. Escrevia em seu blog: “Sinto-me vigiada e perseguida o tempo inteiro, mas vou em frente”. Num ensolarado nove de outubro de 2012, mais uma vez frequentou com alegria as aulas numa das poucas escolas ainda abertas para meninas. Era um estabelecimento dirigido por seus pais, onde uma dúzia de meninas ainda teimava nos estudos. Saiu tranqüila em direção ao ônibus que a levaria para casa. Mas apenas ia entrando, quando um homem a interceptou e lhe desferiu dois tiros, um deles na cabeça. Tinha agora 14 anos. Seria seu fim? Ou começo de um novo tempo? Um blog da época denunciava: “Para as mulheres, a vida local tornava-se ainda pior. Elas não podiam estudar, pois este agora era um privilégio exclusivo dos homens. As escolas para garotas passaram a ser destruídas; foram mais de 200. Mesmo sob pressão, uma ainda resistia aberta. Graças, em parte, à coragem de uma menina, Malala Yousufzar… Eis nossa heroína. Uma menina que, apesar de sua tenra idade, soube lutar por um ideal, um direito sagrado, o simples direito de ir à escola. Depois de meses sob os cuidados dos melhores especialistas do mundo, a menina sobreviveu. Saiu de um transe quase fantasmagórico, para retomar suas energias e continuar sua luta. Disposta a tudo, resolveu escrever um livro. “Quero contar a minha história, mas também a história de 61 milhões de crianças que não podem ter educação. Quero ser parte de uma campanha para dar a cada menino ou menina o direito de ir à escola. É um direito básico”, disse ela, anunciando o lançamento de seu livro “Eu sou Malala”. Mas a história dessa guerreira contra o mais vil dos preconceitos, que mistura machismo e fanatismo, está apenas começando. Nesta semana a menina paquistanesa – hoje com 16 anos – surpreendeu e emocionou o mundo com um discurso na ONU. Sob um silêncio inquietante e introspectivo, disse em alto e bom som: “Vamos pegar nossos livros e canetas. Eles são nossas armas mais poderosas. Uma criança, um professor, uma caneta e um livro podem mudar o mundo. A educação é a única solução”. Disse o que o mundo precisa ouvir. Calou a voz de seus algozes, sentenciando uma verdade que não se apaga: “Eles acharam que uma bala iria me calar. Mas eles falharam… E do silêncio vieram milhares de vozes ativistas”… Sim, querida menina, muitos seguirão seus passos, sua coragem. Porque nada no mundo, nem racismo, nem machismo, nem radicalismo religioso, nada justifica a cultura da ignorância. Isso vale também por aqui. Porque identidade religiosa ou cultural não se mede pelo grau de subserviência aos que ditam regras sobre um povo, mas pela maturidade intelectual e de respeito entre seus membros, sejam homens ou mulheres, crentes ou ateus. WAGNER PEDRO MENEZES wagner@ meac.com.br

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