Frei Carlos Mesters, flor crescida na sombra

Há muitos anos conheci Frei Carlos Mesters quando fui fazer palestra em Andra dos Reis. Hospedado no Convento Carmelita, nos encontramos por alguns minutos. Não lembro se assistiu minha palestra. Conversamos por alguns minutos apenas. Lembro que ele me disse: “Então você faz parte do Meac, que belo trabalho o de vocês”. Foi um elogio que me comprometeu muito. Tudo que tenho lido do Frei Carlos é extraordinário. É chuva calma que pentra na terra de mansinho, e faz brotar compromissos. Antoninho Tatto Frei Carlos, flor crescida na sombra Eliseu Lopes* Ao se encontrar com Carlos Mesters pela primeira vez, Maria, de ltapuranga (GO), exclamou: “Então o Sr. é que é o frei Carlos Mestre? Parece flor crescida na sombra: alto, esguio e pálido.” É isto o frei Carlos. É flor crescida na sombra. Nasceu como uma tulipa, sem ostentação, numa cidadezinha ao sul da Holanda. Cresceu na acolhedora e cálida sombra de uma família biblicamente perfeita: sete irmãos. Na infância, viveu os anos sombrios da Segunda Guerra Mundial. Mas, pela localização geográfica, sua cidade ficou à sombra dos acontecimentos e não sofreu grandes transtornos. Jacobus Gerardus Hubertus Mesters nasceu na Holanda, no dia 20 de outubro de 1931. Foi este o nome que recebeu na pia batismal. Vinte anos mais tarde, ao receber o hábito da Ordem Carrnelita, já no Brasil, foi rebatizado de Carlos: frei Carlos Mesters. Quando fala ao povo sobre a Bíblia, frei Carlos recorre às vezes a algumas imagens familiares, impregnadas de reminiscências da infância. A Bíblia é como um álbum de família. Numa desordem organizada, seguindo o ritmo da vida, oferece um espelho da família. Enfeixa e reúne, na seqüência das páginas e até numa página só, o registro de cenas e fatos distantes no tempo. Anos e anos podem ser folheados num minuto. Vêm emendados, um no outro, acontecimentos com séculos de distância. O Brasil como lar definifivo Aos 17 anos, o jovem Jacobus Mesters escolheu o Brasil como campo de sua futura atividade missionária. No dia 6 de janeiro de 1949, festa dos Santos Reis, ele e seu amigo Vital Wilderink tomaram o navio rumo ao Brasil. Foram duas semanas entre o céu e o mar. No dia 20 de janeiro, o navio lançou âncoras no porto do Rio de Janeiro. Era a festa do padroeiro da cidade, S. Sebastião. Uma numerosa procissão caminhava pelas ruas, e aquele espetáculo marcou suas primeiras impressões da terra que adotara como sua nova pátria. Voltou para o navio e pôde assim contemplar com novos olhos a beleza do litoral até a cidade de Santos, onde desembarcou no dia seguinte. As paisagens de sua nova pátria se descortinaram, exuberantes, na subida de Santos a São Paulo. No convento da Rua Martiniano de Carvalho, completou o curso de “Humanidades” e, em janeiro de 1951, com o hábito de carmelita, recebeu o sonoro nome de frei Carlos. Muito sabiamente, os carmelitas enviavam seus futuros missionários em plena juventude e ainda no período de formação, numa fase muito propícia à inculturação. Frei Carlos se abrasileirou tão bem que, no encontro inter-eclesial das CEBs em João Pessoa (PB), quando os peritos foram escolher alguém que pudesse falar ao povo de modo compreensível, o escolheram, por unanimidade, como seu porta-voz. Terminado o noviciado, fez a profissão religiosa no dia 22 de janeiro de 1952. Cursou a Filosofia em São Paulo e foi fazer a Teologia em Roma, no Colégio Internacional Santo Alberto, em 1954. Foi consagrado presbítero no dia 7 de julho de 1957. Formou-se em Teologia no Angelicum, a respeitada Faculdade Teológica dos dominicanos, em 1958. Em ciências bíblicas, formou-se primeiro, no Institutum Biblicum dirigido pelos jesuítas em Roma e, depois, na Escola Bíblica de Jerusalém, dos dominicanos. Em 1962, voltou a Roma para defender tese junto à Pontifícia Comissão Bíblica. Em 1963, de volta ao Brasil, foi nomeado professor no Curso Teológico dos Carmelitas, em São Paulo. Pelo testemunho de alguns de seus ex-alunos, a Exegese, até então considerada uma matéria árida e secundária, passou a merecer um grande interesse, graças às virtudes didáticas e sobretudo ao entusiasmo contagiante do jovem mestre. Seu desempenho como professor não passou despercebido: em 1967, foi convocado para dar aulas no Colégio Internacional Santo Alberto, em Roma. É claro que este “brasileiro” não podia se conformar em ficar longe do Brasil. Em 1968, deu por encerrada sua colaboração em Roma e voltou, sendo transferido para Belo Horizonte (MG), onde o Convento do Carmo se destacava como um centro de irradiação, um lugar de acolhimento e um ponto de referência, naqueles tempos convulsos. Foi chamado para lecionar no Instituto Central de Teologia e Filosofia da Universidade Católica, que vivia uma fase de grande efervescência. Aliás, todo o mundo estudantil, em Belo Horizonte, estava em febre alta. Frei Carlos e seus companheiros participavam ativamente dos movimentos de resistência ao regime militar que se exacerbava. Frei Carlos e o CEBI O CEBI é como uma planta rasteira que se esparrama e, na sua aparente fragilidade, leva a força irresistível da vida. A semente dessa planta foi lançada, em Angra dos Reis, no final de 1978, através dois cursos de caráter nacional. Em 1979 foi semeada regionalmente no Nordeste, no Centro-Oeste e no Sul. Para frei Carlos, seu único rnérito é de ter sido o semeador no terreno fértil e já preparado das comunidades populares. Quem o acompanhou, nesses primórdios do CEBI, sabe da sua total e incansável dedicação. Começou uma fase de intensa produção, digamos, informal e espontânea, em que se desenvolveu e aprimorou aquele carisma de comunicador da Palavra que todos reconhecem nele. Ele próprio deve ter perdido a conta dos cursos que assessorou, dos textos que escreveu, das reuniões de que participou, das entrevistas e reportagens que deu. Como não se atribui nenhum direito de propriedade privada sobre o que sai de sua boca ou brota de sua pena, sua palavra, falada ou escrita, espalhou-se com a liberdade de uma “brisa leve”, para usar uma imagem que lhe é cara, criando um clima novo na atmosfera bíblica. Por fazer questão de sempre escrever de maneira clara e popular, frei Carlos é acusado pela empáfia de alguns doutoraços de não passar de um “vulgarizador” da Bíblia, sem quilate científico. Esquecem-se de que a obra da vida de Jerônimo, o patrono dos exegetas, foi a Vulgata e de que o grande ideal de Lutero foi o de vulgarizar a Bíblia. Dom Tomás Balduino revida: “criticam porque Frei Carlos não é um simples compilador nem se contenta em fazer autópsia bíblica.” Em 1988, quando o Estadão publicou, com estardalhaço, um longo artigo feito de ataques contra Carlos Mesters e o CEBI, foi grande a repercussão. Repórteres de jornais e revistas iam ao CEBI ou telefonavam, à cata de informações e queriam marcar entrevistas com frei Carlos. Na falta de notícia, publicavam especulações sobre supostos processos em andamento no Vaticano. Frei Carlos se esquivou da imprensa, mas preparou uma resposta contundente a todas as acusações para distribuir aos amigos e interessados. É assim o frei Carlos: para defender o povo, não lhe falta audácia nem vigor. Quanto às acusações que lhe são assacadas, simplesmente as ignora para não prejudicar seu trabalho com o povo. O povo, com quem se identifica, é que, neste caso, se sentiu atingido, como provam as inúmeras cartas e abaixo-assinados de repúdio aos ataques que recebeu então. *Eliseu Lopes (in memorian) foi secretário executivo do CEBI por muitos anos. O presente texto encontra-se publicado em versão ampliada no livro Reflexos da Brisa Leve, publicado por ocasião do aniversário de 60 anos de Frei Carlos Mesters.

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