Ir contra a corrente

Um dos momentos mais importantes da visita do papa ao Brasil, durante a JMJ, foi seu discurso aos bispos, sacerdotes, religiosos e seminaristas, na Catedral de São Sebastião, Rio. Sem desmerecer todos os demais pronunciamentos, dirigidos a públicos específicos e na língua própria de cada público, o discurso que aqui destaco se sobressai por uma motivação que diz respeito a todos: elenca as diretrizes da Igreja. E, como é de se esperar dum papa aberto à realidade humana e aos desafios divinos, foca a Igreja que somos, a Igreja Corpo de Cristo, ou seja, a Igreja presente em cada um de nós. Sem esta realidade, a Igreja Institucional de nada vale, sequer existirá e, se existir, estará fadada à frieza de suas pedras ou à ação de um ativismo burocrático, sujeito a toda e qualquer mazela humana. A perspectiva da ligação Deus-homens (religar) será sua maior utopia, mentira mesmo! A verdadeira Igreja – aquela que tem como meta levar adiante o desafio cristão – não pode nunca se descuidar de seus objetivos. Para tanto, o papa Francisco destacou três pontos: 1. Chamados por Deus. 2. Chamados para anunciar o Evangelho. 3. Chamados a promover a cultura do Encontro. O primeiro deles nos lembra a escolha divina sobre um povo eleito, desafiando-nos a um retorno às origens: “Não fostes vós que me escolhestes, mas eu que vos escolhi” (Jo 15,16). Só este enunciado faz corar a mais singela consciência dum cristão qualquer, diante da disparidade do que vemos acontecer. Ainda há cristãos que se acham no direito de fazer suas escolhas eclesiais, criar os próprios estatutos de vida cristã, estipular normas, distorcer leis e tremular suas bandeiras como as mais perfeitas do universo. Quanto mais adequada uma doutrina à necessidade popular ou mesmo pessoal, mais sucesso e seguidores terá, pensam estes. Instituições e criações humanas! Mas “eu não vim para destruir a lei, porém levá-la à perfeição” diria Jesus. Lembra-nos o papa: “E esta ‘vida em Cristo’ é justamente o que garante a nossa eficácia apostólica, a fecundidade do nosso serviço”. Eficiência e fecundidade do serviço são os pesos dum apostolado verdadeiro. Tal a importância desse peso, que aqui Francisco faz um primeiro grande puxão de orelha às lideranças católicas: “Não é a criatividade pastoral, não são as reuniões ou planejamentos que garantem os frutos, mas ser fiel a Jesus, que nos diz com insistência: ‘Permanecei em mim, e eu permanecerei em vós’ (Jo 15, 4). Ensina-nos a não queimar etapas. Porque, “chamados para anunciar o Evangelho” é uma consequência da própria fé. “Também nós façamos que isso se torne realidade no nosso ministério” – alertou. E acrescentou: “Não podemos ficar encerrados na paróquia, nas nossas comunidades, quando há tanta gente esperando o Evangelho! Não se trata simplesmente de abrir a porta para acolher, mas de sair pela porta afora para procurar e encontrar”. Já no seu terceiro tópico, o papa desafia a Igreja a “promover a cultura do encontro”. Um mundo que se diz globalizado, contraditoriamente, é hoje um mundo excludente, de muitos desencontros. Segundo o papa, “em muitos ambientes, infelizmente, ganhou espaço a cultura da exclusão, a ‘cultura do descartável’. Não há lugar para o idoso, nem para o filho indesejado; não há tempo para se deter com o pobre caído às margens da estrada”. Lembra-nos a simplicidade evangélica: “Não queremos ser presunçosos, impondo as ‘nossas verdades’. O que nos guia é a certeza humilde e feliz de quem foi encontrado e transformado pela Verdade que é Cristo, e não pode deixar de anunciá-la”. Isso tudo é ação e missão cristã. Esse é nosso desafio: “tenham a coragem de ir contra a corrente”, conclui Francisco. WAGNER PEDRO MENEZES wagner@meac.com.br

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