Libertar das trevas

Nada há de mais agourento para um ser vivo que o caminhar na escuridão. Essa é uma das experiências mais assustadoras até para um mero animal irracional. O que se dirá a uma vida habituada aos caminhos fáceis, à luz sempre reveladora de um projeto a seguir? Mesmo que tênue, uma meta estará sempre alimentada pela determinação de se alcançar sua realização. Mesmo desprovido de uma visão biológica, todos seguimos a intuição da alma, do coração, quando o que impulsiona nossos passos é a vontade de alcançar algo, realizar um sonho, suprir uma necessidade. Caminhamos sempre, em busca de um objetivo. Quando esta meta vem acompanhada de um desejo além das limitações que cercam nossa existência, crescemos, nos agigantamos diante das próprias limitações. Esse é o ser humano, o único animal capaz de superar qualquer limite quando uma eventual barreira cerceie momentaneamente seus caminhos. O homem tudo pode, tudo alcança, munido apenas de sua vontade e determinação. Esse poder humano nos aproxima do divino. É nossa maior riqueza. Ao contrário de um animal enjaulado, condicionado ao meio em que vive, o ser humano, mesmo em situações assemelhadas, é capaz de alçar voos e gozar da plenitude que sua mente nunca aprisionada lhe proporciona. Nenhum cárcere , nenhuma situação de trevas ou negritude, doenças ou limitações físicas, poderão encerrar a capacidade do pensamento e das ambições de nossa racionalidade. Por isso, o homem é livre. Sempre será, mesmo na mais tétrica e agourenta das prisões contra sua liberdade física. Aqui entra a mística que nos impulsiona; a fé. Usar desse atributo é exercitar o potencial da liberdade às vezes adormecido dentro de nós. É segurar na mão divina para vencer as trevas e os conflitos, as muitas barreiras que inibem nossos passos, nossos sonhos, nosso desejo de plenitude sempre. O homem de fé, mesmo tolhido em sua potencialidade ou liberdade física, será sempre um vitorioso em suas ações. “Eu, o Senhor, chamei-te realmente, eu te segurei pela mão, eu te formei e designei para seres a aliança com os povos, a luz das nações” (Is 42,6). Acreditar nessa promessa é muito mais que simples utopia de fanáticos religiosos ou escravos da “cegueira intelectual”, como dizem muitos dos defensores do ateísmo moderno. Ora, o mesmo profeta das visões divinas, aquele que melhor nos falou de sua intimidade com os mistérios celestes, enxergou o outro lado das perseguições que sofria com a clarividência da fé. Deixou-nos um desafio, um alerta sobre a missão terrena daqueles que ainda hesitam diante dos desafios do mundo. Foi sucinto. O homem de fé aqui está “para abrir os olhos aos cegos, para tirar do cárcere os prisioneiros e da prisão aqueles que vivem nas trevas” (Is 42, 7). Isso tudo resume o ideal cristão, a missão que nos cabe. A pior das cegueiras humanas é aquela que tolhe sua liberdade de acreditar. Não apenas no que é divino – essencial para nossa razão de ser – mas também e principalmente naquilo que tem de mais precioso, sua capacidade de amar, de pensar, de sonhar. Porque a capacidade humana de “vencer os conflitos, superar o ódio” só mostrará sua eficácia quando aliada à vontade do indivíduo, essa força interior que tudo pode e que denominamos fé. Cantava o salmista: “Põe tuas delícias no Senhor, e os desejos do teu coração ele atenderá. Confia ao Senhor a tua sorte, espera nele e ele agirá. Como a luz, fará brilhar a tua justiça” (Sl 36, 4,6). Essa é a fonte onde encontramos forças para continuar acreditando. E teimando em nossa fé. São muitas as prisões humanas. Incontáveis as razões de suas cegueiras. Infindas as justificativas de uma ciência sem fé e razão, mas a liberdade de acreditar, essa sim, ninguém nos tira. WAGNER PEDRO MENEZES wagner@meac.com.br

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