MEU BURRINHO EMPACOU

Já fui grande torcedor do PAC. Não, não é o que você está pensando. Era mesmo o meu time de coração, o Palmital Atlético Clube, que desalojou um antigo Operário FC, dando lugar ao PAC, mas também abrigou um projeto do Corinthians em minha cidade, nos anos setenta. Por força dessa mistura, acabei até sendo eleito presidente do clube corintiano, sucedendo ao veterano Athos Mineto (torneiro mecânico dos bons) e tendo como companheiros na diretoria pessoas como Wilhian Bazzo (gerente das Pernambucanas), Natal Moreno (instrutor de auto-escola), Pompilio Ghirotti (advogado) e Gilberto Longo (comerciante), além de um conselheiro especial, o cartorário Adão Cruz. Nosso projeto: construir um estádio e levantar a moral corintiana na minha cidade. Agora me dou conta: dos nomes acima citado só eu sobrevivo. Todos os demais estão do outro lado, talvez agora rezando aos pés do Criador: salve o Corinthians! Do projeto de um estádio restou o terreno e a única obra concreta foi que naquele terreno se construiu o fórum da comarca. Pelo menos a justiça ali está sendo feita, espero. Como vêem, há muitos sonhos por aí que alçam vôo no élan de uma torcida, no ímpeto de uma campanha. Depois atolam na realidade. Depois empacam na primeira curva da estrada, qual burro teimoso que já não mais aguenta o peso de uma carga. Construir um estádio para o Corinthians de Palmital, quando sequer o original paulistano possuía o seu? Ora, ora, era muita areia para uma carroça pequena! Citar os nomes de meus companheiros já falecidos seria desnecessário, (o faço como uma homenagem póstuma) não fossem eles um torneiro mecânico, um bom gerente empresarial, um instrutor de direção, um advogado íntegro e um comerciante honesto, além do bom cartorário a facilitar os trâmites da burocracia existencial. Toda essa aresta do meu passado explode no presente. Não é um programa que acelere o crescimento de ninguém, nem de nada, sem uma leitura crítica dos fatos que nos circundam. Muitos burros estão empacados nos caminhos do nosso desenvolvimento, seja como nação, como torcedor ou como indivíduo. Talvez estejam arriados com o peso dos sonhos de grandeza que possuímos. Talvez cansados com a sobrecarga de responsabilidades que lhes atribuímos. Talvez desiludidos com a incongruência entre sonho e realidade, entre capacidade de torcer e de administrar. Os sonhos de grandeza acabam sempre no despertar da pobreza, essa cruel verdade que nos assola e impede um crescimento além dos parcos recursos que nos sobram. Mas não fiquemos no derrotismo. Jesus, por exemplo, tinha planos grandiosos, porém sabia apresentá-los e gerenciá-los. O comedimento em suas ações e a paciência na espera de resultados era sua maior característica. Nunca impôs ou exigiu algo maior que a capacidade de realização de seus discípulos. Não escreveu projetos mirabolantes, nem prometeu o céu na terra, mas levou seus ouvintes a um amadurecimento para suas propostas que não excluía ninguém, nem exigia o impossível, nem extorquia o que fosse possível. Tudo dentro da realidade, da expectativa, da necessidade de cada indivíduo. O burrinho da história surgiu no auge, no momento que o povo exigia uma aceleração de crescimento. Jesus havia crescido muito no conceito popular. Era hora de entronizá-lo com toda pompa e realeza, desbancando os poderosos da época. A entrada triunfal de Jerusalém (que recordamos no Domingo de Ramos) foi a prefiguração de um poder que nossos poderosos nunca entenderam e dificilmente entenderão sem a humildade que lhes falta. O veículo dessa trajetória não poderia ser outro senão um burrinho, um pequeno e ridículo animal, simbolizando que a pureza evangélica é um Plano simples e perfeito, capaz de fazer crescer a massa dos desentendidos. Ainda bem que o burrinho de Jesus não empacou, pois seu jugo era suave e seu peso leve… WAGNER PEDRO MENEZES wagner@meac.com.br

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