No fundo da cova

Parece um título fúnebre. Mas não é. Ao contrário, meu desejo é dar-lhe um pouco de poesia, já que habituados estamos a contemplar uma cova com repugnância e medo. Uma cova tem também seu lado místico. A história bíblica nos relata a experiência do profeta Daniel, lançado numa cova de leões. Tudo por inveja à confiança do rei sobre seu exemplar ministério. Seus inimigos, muitos deles ambicionando o posto que ocupava, desejavam vê-lo pelas costas, derrotado. Deus intervém e usa aquela experiência de uma noite numa cova cheia de leões como oportunidade para manifestar seu poder, sua proteção sobre aqueles que lhe são fiéis. Da cova aterrorizante faz emergir uma inusitada prova de amor. O homem sobre o qual a inveja e a ambição lançam olhares fulminantes, desdenhando a fidelidade e integridade de sua alma, é posto em liberdade, são e salvo, agora revestido da glória da predileção divina. São muitas as covas em nossas vidas. São muitos os leões que nos espreitam. A história que nossa história escreve possui semelhanças, porém não meras coincidências com a história do profeta. Para não dizer que a repetimos constantemente em nossas vidas. Ou você nunca se sentiu no fundo do poço, da cova, como um José do Egito vendido pelos irmãos? O próprio filho de Deus, espoliado em todos seus direitos e em sua dignidade humana; humilhado, destroçado, derrotado, acabou assassinado pela prepotência dos donos da “verdade” – afinal, o que é a Verdade? – e depositado às pressas numa cova emprestada. Isso tudo para não estragar a festa que corria solta na sociedade dita religiosa daqueles que condenaram o dono da Verdade. Os leões já não estavam restritos a uma cova. Ao contrário, estavam bem soltos e até saciados, soberanos nas ruas da Jerusalém de pedras, o modelo das civilizações da época. A cova de Jesus possuiu a mística da aceitação momentânea, oportunidade extraordinária para dela emergir, mais uma vez, a luz do poder divino, a vitória sobre todas as desgraças desse labirinto de intrigas e desilusões humanas. Deixou de lado as “ataduras” que lhe impuseram, a mirra, o aloés, a química e o perfume deste mundo trágico e ilusório. Tirou seu pé da cova, ressurgiu dos mortos. Ora tudo isso hoje escrevo com um objetivo final. Um olhar místico e piedoso para o fundo de uma cova. Olhar que vem de longe, do meu tempo de criança ainda livre e aventureira pelas ruas da minha cidade. Um dia me convidaram: quer ser o Francisco? Não, obrigado! Preferia continuar eu mesmo. Minha mãe interferiu, explicando e convencendo: aceite, filho, você vai representar o menino que viu a mãe de Jesus na cova… Não esperei a conclusão. O susto foi grande, mas a curiosidade maior. Então, juntamente com duas meninas que se diziam Lúcia e Jacinta, me entronizaram num belíssimo carro alegórico, tendo ao alto a imagem bela e serena daquela mãe aureolada por uma coroa de estrelas e distribuindo seu maternal sorriso ao povo em procissão. Ali eu era o menino Francisco. Ali representava um pequeno pastor de uma história miraculosa que marcou minha existência para sempre, a bela história das aparições marianas em Fátima, Portugal. Hoje, ao recordar aquela cena, vem-me sempre a singeleza de um local ermo, tranquilo, um sítio encravado entre montanhas e um arbusto como aquele do Sinai, que o fogo jamais consumia, mas que encheu de poesia o significado da mensagem divina, a aliança de amor entre Deus e os homens. Aquele mesmo arbusto, agora manifestando a beleza de uma Virgem. E o verso ainda ecoa em meu coração: “A treze de maio, na Cova da Iria, eis que aparece a Virgem Maria”. WAGNER PEDRO MENEZES wagner@meac.com.br

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