O futuro que queremos

Nenhum documento humano, assinado por uma representatividade de peso, tem título tão promissor e esperançoso quanto… A cúpula das nações que ecoou metas e objetivos de vinte anos passados, para retomá-los e avivá-los num novo encontro aos pés do Cristo Redentor – uma das maravilhas do mundo moderno – tirou do esquecimento muitas das decisões já acordadas na Eco-92. Pano de fundo: precisamos salvar nosso Planeta. O interessante é a constatação do óbvio. Tudo o que se discutiu há vinte anos, voltou à tona agora. Voltará daqui mais vinte? No andar da carruagem, a cada cinco dessas assembléias, teremos mais um século de muitas discussões e pouca prática, numa queda de braços enfadonha, vergonhosa. Há de se contemplar sempre o miraculoso quadro das maravilhas que nos cercam, mas não nos esqueçamos que nesse cenário belo e exuberante da Natureza “um porco, picado pelas vespas, bufa-me às pernas, enraivecido”, como escreveu Camilo C. Branco diante de questões e situações semelhantes. Quem patina no molhado, atola ou, no mínimo, sai todo enlameado. Então vamos à prática. O futuro que queremos não é o presente que vivemos. Deve ser melhor que este. O sonho humano de preservação do próprio meio, de sustentabilidade, como hoje é chique dizer, exige passos concretos de uma conscientização global, que começa no aqui e no agora de nossas ações. Não se visualiza um futuro sem os pés no presente. Todos hão de convir que não estamos vivendo tempos de amores platônicos ao mundo que nos sustenta. No dizer do escritor acima, o quadro do “Estio” – de Durameau, pintor francês que magnificamente deixou em tela as maravilhas de um dia de verão campesino – “tudo isso vejo no quadro, vivendo, movendo-se, falando; mas, se a tentação de ver a realidade me vence, vem o pó, e cega-me; vem o calor e reduz-me a manteiga; uma farpa de silva rasga-me o casaco”… Isso tudo menos 160 anos, sem nossos motores de combustão, nossos agentes de poluição vastos, nossa inconsciência ambiental, nossos ét céteras e tal. Vinte anos se passaram e pouco fizemos. Vinte anos virão e uma nova geração de vinte, quarenta, estará no comando do futuro sonhado, desenhado, configurado por muitos… Mas que os porcos se chafurdem noutras pragas ou nos quintos… Porque aqui quem manda somos nós, quem traça nosso destino é nossa ação de preservar o que é bom, nosso instinto de sobrevivência, nosso amor à casa que temos, ao paraíso da Criação. Porque “o Senhor Deus tinha plantado um jardim no éden, do lado do oriente, e colocou nele o homem que havia criado”. Porque “O Senhor Deus fez brotar da terra toda sorte de árvores de aspecto agradável, e de frutos bons para comer; e a árvore da vida no meio do jardim, e a árvore da ciência do Bem e do Mal”. (Gn 2,7…9) Quem preserva, continua a obra dos pais, do Pai… Quando todos os povos tomarem para si a responsabilidade da preservação um milagre estará acontecendo. Mais que práticas doutrinais, dogmas eclesiais ou opções religiosas, será a própria Natureza a maior das evangelizadoras (portadoras de uma boa nova) para o mundo novo que sonhamos. Pois é exatamente na contemplação de suas belezas e maravilhas, de sua generosidade infinita, de sua reciprocidade com os que dela vivem, buscam seu sustento, harmonia e paz, que a humanidade definitivamente encontrará e aceitará o maior dos mistérios, o futuro que nos espera: Deus. Caso contrário, conformemo-nos com o bafo e a raiva dos porcos que chafurdam aos nossos pés. WAGNER PEDRO MENEZES wagner@meac.com.br

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