O PARENTE DA VÍTIMA

A tocha olímpica passou por aqui, provocando verdadeiro afluxo de pessoas que apinharam a avenida principal da minha querida cidade interiorana. Nem nos gloriosos dias de vitórias da seleção vi tanta gente concentrada numa única rua. O movimento do impeachment perdeu feio para a ilusão da tocha. Fiquei a imaginar o que leva um povo às ruas, quando muito senão a curiosidade? A motivação política tinha raízes. A esportiva vinha sempre acompanhada pela alegria. Mas teríamos também tão grande espírito olímpico, quando nem o significado da palavra a maioria conhece? Não estou aqui a denegrir nossa cultura, muito menos nosso patriotismo. Mas a curiosidade também constrange, quando não mata. Raramente a vemos como virtude, pois que sua função é mais especulativa do que propriamente expressão cultural. Uma tradição que atravessa séculos, talvez milênios, há de ter algo de significativo, para continuar mobilizando massas. No nosso caso, temo pelo fato de estarmos nos prestando a massas de manobras, aquela triste manipulação da opinião popular em prol de ações nada esportivas. Já pipocam, aqui e ali, denúncias sérias de desvios de recursos para as faraônicas instalações olímpicas, que ser ergueram a toque de caixa na orla da cidade maravilhosa. Toque de caixa na verdadeira acepção do termo! Tais quais os muitos elefantes brancos que nosso país herdou da mais frustrante de suas Copas, aquela que nos banhou sete vezes na humilhação da derrota. Pior das derrotas veio depois: a consciência de termos sido usados pela ganância e exploração dos oportunistas. Mesmo assim, ainda tenho certa simpatia pela curiosidade humana. Em especial quando esta se manifesta na sua infância. Não há nada mais didático e revelador do que a curiosidade da criança. Ela aprende com os olhos. Ela questiona, experimenta, observa e assimila tudo o que cerca sua existência e lhe desperta a necessidade de compreensão. Não se deixa enganar com facilidade. Só leva adiante o exercício de uma descoberta depois da certeza de que nada perderá com isso. Por primeiro, obtém a compreensão e desenvolve a concordância, para só então arriscar uma ação, uma posição. Oh, santa sabedoria infantil, que não se deixa enganar pela ilusão de uma falsa promessa ou pelo fogo de uma paixão momentânea! A tocha olímpica está por aí. Desfila entre nós, de norte a sul, leste a oeste, arrastando multidões. Grécia, Atenas, Olimpo, Zeus ou qualquer outra divindade mitológica dizem algo ao nosso povo? Quando muito, inspira-nos o básico, a necessidade de continuar nossos embates, em busca das vitórias cotidianas, a grande olimpíada da vida. Mesmo assim, respeitando a essência desses jogos – que inspiram a fraternidade entre os povos – não nos esqueçamos da impiedosa perseguição que marcou para sempre a história do cristianismo. Poder e povo nem sempre estão afinados num ideal comum. Para uns, tocha ou taça representam oportunidades de sucesso, riquezas. Para outros, decepções, tragédias. Qual nossa parte nesse latifúndio? Mas questionemos com sabedoria, nunca com mera curiosidade. Toda pergunta merece resposta. E qualquer resposta há de provocar mudanças. Senão, agiremos como o transeunte ao longo das nossas vias. Diante de um aglomerado de pessoas, percebe um acidente a mobilizar o povo. Morrera alguém? A curiosidade e a fatalidade caminham juntas. Então, movido pela curiosidade e imaginando as proporções do desastre, o pequeno transeunte resolve abrir caminho com sua esperteza de sempre. “Com licença, sou parente da vítima. Com licença, sou parente… Com licença…” Assim, chega ao local do acidente. Era um burro atropelado! WAGNER PEDRO MENEZES wagner@meac.com.br

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