O QUE EU VI, O QUE VEREMOS

A aviação ainda é uma façanha emergente: pouco mais de cem anos de existência. O dia 23 de outubro de 1906 foi um marco. Nesta data, Santos Dumont fez o voo inaugural do primeiro aparelho mais pesado do que o ar. Uma odisseia de sessenta metros, ao redor do maior símbolo da prepotência humana da época, a torre Eiffel. De lá para cá, muitas nuvens singraram nossos céus, muitos voos alçaram a genialidade humana, a intrepidez de seus sonhos e ambições. Pouco mais de cem anos sem que nossos voos e descobertas, a conquista da Lua e a sondagem das estrelas ainda não nos tenha revelado outras vidas nesse Universo. Os alegres e efusivos anos das grandes invenções, no início do século passado, voaram céleres com a sucessão de novos inventos que transformaram o mundo.

          Assustado com o rápido aprimoramento de sua obra, em função da primeira grande Guerra (1914/18), Santos Dumont aposentou seu gênero criativo. Transferiu-se para Petrópolis, onde realizou seu último grande investimento, uma casa super futurista para a época, à qual deu um nome próximo à realidade das fábulas – a Encantada – e ali se isolou do mundo. Escreveu então seu segundo livro, “O que eu vi, o que nós veremos”. Nele fazia diversas sugestões para o bom uso de seus inventos, mas não ocultava sua mágoa e decepção pelo uso militar que faziam do avião.

          Pobre alma! Numa última tentativa de recompor seus projetos, correu mundos e fundos divulgando apelos contra a “força aérea” que destruía vidas. Nessa luta, sentia-se uma “Águia Solitária” (nome do primeiro avião a atravessar o Atlântico), mas intensificava suas viagens usando seu prestígio para demover a alma humana de suas insanidades contra si própria. Nada obteve. Ao contrário, viu desenvolver-se com voraz intensidade o aparelho que sonhara para diminuir distâncias entre os homens. Não diminuía; aumentava em função da guerra, do morticínio que proporcionava.

          Inconformado, o “Pai da Aviação” volta em definitivo para o Brasil. Prestam-lhe uma nova homenagem, com o voo inaugural do hidroplano Santos Dumont, tripulado por seis pessoas. Diante de seus olhos comovidos, o pequeno aparelho sobe vertiginosamente e desce em parafuso, sepultando-se em definitivo nas estranhas do mar. Profundamente deprimido, o grande inventor aceita como sua a culpa por essas e outras mortes que viriam com o uso do seu invento.

          Isso tudo não encerra a biografia desse grande brasileiro. Extremamente debilitado, o já velho construtor “de sonhos” isola-se numa praia paulista donde “ouve falar” da revolução que ameaça a integridade brasileira (1932). Não se conforma com tamanha insanidade entre compatriotas. No dia 23 de julho daquele ano vê aviões militares cruzar o céu anil de sua pátria em direção a um navio ocupado por brasileiros paulistas. Era o alvo de bombardeio daqueles aviões! Desesperado, Santos Dumont se suicida.

          Paixão, vida e morte desse herói aqui estão. O que ele viu, já o sabemos. O que veremos nós? Toda e qualquer invenção humana tem sempre a mão e ação divina, pois que dele provem nossa sabedoria. De nada nos serve toda ciência, quando dela fazemos mal uso. Mecânica ou imaginariamente, Santos Dumont nos ensinou: podemos voar, podemos sonhar. Mesmo com tantas divergências entre nós, com tantos desarranjos dentro da nossa casa comum, podemos sonhar, podemos voar…

WAGNER PEDRO MENEZES
wagner@meac.com.br

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