PERDÃO A JATO – WAGNER PEDRO MENEZES

PERDÃO A JATO Em plena crise hídrica, quando o sudeste brasileiro contempla um horizonte de céu azul e lagos secos, a operação lava a jato se contrapõe neste cenário como algo fora do contexto. Onde buscar o precioso líquido para se purificar tanta sujeira que emerge dos subterrâneos da má conduta humana? Parece-nos que nem uma torrencial chuva dos reservatórios celestiais será suficiente para saciar e devolver a normalidade aos que habitam aqui embaixo. Não falo apenas da escassez do precioso líquido, nem das nossas falcatruas. Há algo muito mais sério na crise que atravessamos. Tão sério que não se restringe a uma única região geográfica, mas afeta a todos, ocupantes que somos desse lindo planeta Água. É a crise da auto-suficiência, o distanciamento da graça de Deus. Esse, sim, deixa sedento o coração e torna árido o pensamento, bem como impede o crescimento da mais bela planta da existência humana: a esperança. Sem ela, nossos reservatórios de dignidade ou, no mínimo, de respeito humano e racionalidade, estão a descoberto e se deixam estorricar numa vida sem sentido. Sem a graça de Deus somos nada. Há recursos para superação dessa crise. No catolicismo encontramos o sacramento da Penitência, aconselhado a seus seguidores como uma obrigação anual. Não é um gesto meramente simbólico ou de obediência servil à doutrina, mas uma necessidade que todo ser humano tem de se purificar periodicamente. “Não é ir a uma tinturaria para se tirar manchas” – disse recentemente o papa Francisco – nem uma operação lava a jato que apenas expõe-nos ao ridículo da publicação das nossas fraquezas e falcatruas, mas um encontro pessoal com o Pai. Nada mais exemplificador que a preciosa Parábola do Filho Pródigo. Ela diz tudo. Mesmo assim, a atuação da Igreja como mediadora da graças do Pai está bem implícita nos Evangelhos: “Tudo o que unirdes ao céu”… Essa aproximação se dá com a reconciliação pessoal e comunitária, através da confissão. Exige, no entanto, duas condições: arrependimento e pedido de perdão. Disse Francisco: “Deus perdoa sempre. Ele não se cansa de perdoar. Somos nós que nos esquecemos de pedir perdão”. Exatamente aqui é que constatamos a negligência humana para com essa capacidade infinita de Deus em nos perdoar sempre, desde que esbocemos um mínimo de arrependimento. Na parábola, nem sequer o discurso de perdão preparado pelo filho arrependido foi necessário. Deus Pai lê em nossos corações e um simples esboço de arrependimento já nos faz dignos de receber seu abraço, participar do seu banquete. A culpa é algo impossível dum filho esconder do pai. Um simples olhar já entrega nossas fraquezas. A solução do penitente é expor seu arrependimento e acreditar no imediato perdão que se manifesta na sua infinita misericórdia para conosco. Estamos sedentos dessa graça. A mesma situação que experimentou aquela pecadora arrependida à beira do poço. Ali garimpava sua água, que lhe exigia esforços constantes para sobreviver. Jesus então lhe oferece uma “água viva”, diferente daquela não tão pura e estagnada num fundo de poço. “A água que eu lhe der jorrará para a vida eterna e você jamais terá sede”. Ali a penitente arrependida encontrou a reconciliação, o privilégio de jamais ter sede, pois seu espírito foi banhado pela graça de Deus. Recebeu seu perdão a jato, instantaneamente. Preocupa o descaso do católico quanto à frequência mais assídua a esse sacramento. Quando foi sua última confissão? Por que se verifica tamanho desleixo do católico com uma prática que só lhe oferece “chuvas” de bênçãos e todas as demais farturas dos reservatórios dos céus? O concílio de Chalon-sur-Saone (647-653), já proclamava: “A penitência é a medicina da alma”. E toda alma tem sede de Deus. WAGNER PEDRO MENEZES wagner@meac.com.br

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