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Falar em sacrifícios nos dias em que o conforto, o materialismo e os avanços tecnológicos ou científicos empanturram a sociedade moderna e tudo facilita em nossas vidas, é falar a linguagem dos loucos. Não há como abster- se do fausto que nos rodeia. Mesmo quando fazemos parte de uma sociedade de desiguais. Mesmo quando o maior absurdo do progresso humano é o contraponto da guerra, da miséria, da fome e da violência. Os tempos modernos oferecem tudo para a felicidade e a paz humanas, desde que haja um coerente uso das riquezas adquiridas, do conhecimento e da espiritualidade amadurecida que pensamos possuir.

Neste estágio, temos tudo para uma vida mais justa, mais humana. Se há fome, falta partilha. Se há miséria, falta solidariedade. Se há doenças, faltam planos assistenciais. Se há guerra, falta... despojamento. Como diria Jesus: misericórdia, não sacrifícios! Penetrar esse enigma cristão é descobrir a luz, a luminosa ideia que Cristo nos deixou para solidificar em definitivo seu projeto de novo mundo, nova humanidade. Misericórdia é a palavra. Toda miséria humana passando pelo coração amoroso de Deus. Todo sentimento de rancor, de individualismo, de possessão em demasia, de egoísmo, de racismo, de soberania sobre bens, territórios, cidades, países, se fundindo e desaparecendo na proposta de solidariedade, partilha e despojamento individuais, em face do bem comum. Mas isso é comunismo, grita alguém!

Não. No projeto de Deus não cabem ideias tendenciosas, fracionadas, ocultas sob a sombra de bandeiras que nos dividem. O despojamento que Ele nos pede é regido pelo Amor, pela fraternidade, pela consciência clara e bem administrada da igualdade, portanto dos direitos e deveres que a vida nos ensina a exigir e praticar. Esse é o maior tesouro que a fé pura e genuína faz brotar no coração humano. “O homem bom tira coisas boas do bom tesouro do seu coração, e o homem mau tira coisa más do seu mau tesouro” (Lc 6, 45). Deixo a conclusão desse texto para o final. Porque aqui nos deparamos com a maior e mais clara referencia cristã do que seja uma partilha sem outros interesses que não as alternativas boas ou ruins. Depende de qual seja o tesouro acumulado no coração humano.

Eis então que essa proposta nos remete a um sacrifício, um esforço para identificar nosso tesouro. Sacrifício exigido de todos para purificação de nossos pontos de vistas contaminados pelo individualismo ou qualquer facção que nos divide. Um deles vem do nosso muito falar, muito pensar e pouco praticar. Muitos hão de proferir asneiras, blasfêmias e até calúnias diante desse desafio que propositadamente resgato numa quaresma. Um tempo de sacrifícios. Mas também um tempo de misericórdia... Tiremos, por primeiro, nossas traves, nosso olhar caolho e tendencioso, se quisermos enxergar a pureza desse sacrifício e a riqueza da misericórdia que Deus sempre oferece aos homens “de boa vontade”. Se quisermos salvar o mundo, ouçamos o coração do Pai. Ele nos fez iguais, nos quer iguais, na alegria de superar nossas diferenças com justiça e fraternidade, com perseverança e amor, com despojamento e confiança.

Mas se é de sacrifício que falamos no início é porque ainda temos muito a alcançar. O progresso material não preenche a miséria espiritual. O esforço cristão de oferecer ao mundo uma convivência santa, agradável ao Criador, e um tempo de paz e amor sem travas nos olhos, na língua, nas ideias, ainda não é chegado por razões de nossa ignorância, nossa míope visão dos ensinamentos sagrados. Por isso ainda necessitamos de sacrifícios, muitos sacrifícios! Não aqueles que matavam animais no passado, não aquele de vitimou o Cordeiro de Deus em nosso nome, mas sacrifícios que suplantem o animal que somos, que abram nossas mentes e corações, modelem nossa língua e filosofias baratas, resgate nosso verdadeiro gênero e nos devolva a faculdade de sonhar, de amar; “Porque a boca fala daquilo que o coração está cheio”. (Lc 6,45s).

WAGNER PEDRO MENEZES
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