SEMENTES VITORIOSAS

Se ainda não avaliamos, ao menos compreendemos a misteriosa força de uma semente. Seja esta um grão de mostarda pequenino ou a vistosa e resistente semente de um coqueiro tropical, anão ou não, será sempre forte e resistente em sua capsula protetora. Grande ou pequena, a semente tem em si o mistério reprodutivo do reino vegetal, ou mesmo animal quando consideramos óvulos fecundados como sementes de vida. Aqui abortistas franzem os cenhos. Mas não é esse nosso assunto, ao menos hoje. O fato é que o mistério da vida tem sempre por princípio uma simples semente, um invólucro muitas vezes lançado ao léu, em terrenos diversos, preparados ou não, produtivos ou estéreis, propícios ao desabrochar de uma vida ou adversos à fragilidade de seus rebentos. Foi o que aconteceu com uma semente jogada ao léu por alguém que se refugiou em uma fortaleza há dois mil anos, onde certamente saboreou uma deliciosa tâmara. Enquanto isso, seu povo se defendia do jugo romano e da perseguição que Roma exercia sobre a fé judaica. Ali, na fortaleza de Massada, milhares de judeus resistiram ao cerco romano enquanto puderam. Quebrada a heroica resistência, os rebelados cometeram suicídio coletivo para não se renderem ao jugo opressor. O exército romano transpôs as muralhas da famosa fortaleza, mas lá só encontrou cadáveres, nada mais! Oculta entre as pedras que testemunharam tão radical gesto, uma pequenina semente de tâmara também mostrou sua extraordinária resistência. Isso depois de dois mil anos. Encontrada recentemente, foi lhe aplicado um teste de radiocarbono com os fragmentos dessa semente e de outras achadas no local, que provou sua idade bimilenar. Então outro milagre acontece. Semeada com cuidados, a pequena semente germinou em 2005 e hoje é uma planta sadia e perfeita, conhecida como filha da mais antiga semente a gerar uma árvore. Recebeu o significativo nome de Matusalém, apesar de seus pesquisadores ainda não determinarem com exatidão ser ela uma árvore masculina ou feminina. Dizem que quem semeia tâmara, não colhe tâmara. Sua produtividade se dará quase uma centena de anos depois de germinada. Enquanto isso, resta aos diretores do Centro de Pesquisa Hadassah, de Jerusalém, contemplar mais esse milagre contido numa pequenina semente, capaz de gerar a vida em circunstâncias tão adversas, mas que nos provam o quão extraordinária é sua força interior. Faz- nos entender a beleza da parábola que Jesus nos contou um dia: “O semeador saiu a semear”. O pior dessa história não é a infelicidade das sementes lançadas ao léu, sem um solo bem preparado. Coitadas dessas! Nem a fortaleza de Massada, onde o sangue derramado de muitos tementes a Deus fecundou e irrigou sementes de fé, serviu-lhes como exemplo. Dizem que o sangue dos mártires é semente de novos cristãos. Pois bem! A semente daquela tâmara, oculta entre pedras e espinhos, foi mais forte do que se imaginava, pois encontrou a mão santa de alguém que a semeasse em outro solo, em terreno preparado ao longo de dois mil anos, como o terreno de nossos corações nos dias atuais. “Ouvi, portanto, a parábola do semeador: todo aquele que ouve a Palavra do Reino e não compreende, vem o maligno e rouba o que foi semeado em seu coração” (Mt 13,18). Somos também semeadores de um novo tempo, nova seara que há mais de dois mil anos vem sendo plantada em meio ao árido terreno de muitos corações indiferentes ao milagre da vida. A parábola que nos contou Jesus diz respeito não só ao semeador por excelência, que nos quer ver frutificando “cem, sessenta ou trinta” por um, mas também semeadores de um novo tempo, nova safra de esperança entre nós. Há uma semente de amor e fé adormecida há dois mil anos em nossos corações. Semear é preciso!

WAGNER PEDRO MENEZES
wagner@meac.com.br

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