MEU NOME É MIQUÉIAS

Um leitor e amigo sugeriu-me um comentário sobre determinado trecho do livro de Miquéias (7,2-7). Sexto dos doze profetas menores do Antigo Testamento, tratava-se de um humilde camponês nascido na vila de Morasti, no reino de Judá, que se revoltou contra a exploração ao seu povo. Contemporâneo de Oséias e Isaias, foi um audaz pregador contra os malfeitos não só dos poderosos, como também dos infiéis aos mandamentos de Deus. Denunciou com veemência a cobiça dos ricos, o oportunismo dos comerciantes com seus ganhos imorais, a maldade planejada pelos mais astutos, o uso de balanças desonestas nas feiras e comércios e o crime organizado contra a grande maioria do povo simples. Tudo isso há (pasmem!) 2.700 anos atrás… Ao trecho citado meu amigo deu um título especial: Realidade Brasil. Nesta perspectiva, confesso nunca ter lido crônica tão atual, apesar da longevidade e distancia de nossa realidade. Outros tempos e os mesmos problemas. Duvida? Eis um trecho: “Acabaram do país as pessoas de bem, ninguém há que seja honesto, estão todos de tocaia para matar, cada qual com sua armadilha para caçar o irmão. Eles têm mãos habilidosas para a injustiça: o alto comando solicita, o instruído vai pela propina, o grande manifesta seu preço. Ai dos corruptos! O melhor deles é como um espinheiro, o que é direito parece uma cerca de espinhos”. É ou não uma perfeita descrição dos nossos dias? Aí vêm aqueles derrotados pelo pessimismo e atiram seus dardos envenenados: Não disse! Desde que o mundo é mundo a maldade impera. Não seremos nós que iremos mudar o curso dessa história. Desses quero distância. Porque a voz profética do passado ainda ecoa em nossos corações e reposiciona as ações de muitos, quando seus gritos de alerta encontram eco. Lembra-nos, na sequência: “Teu ajuste de contas virá um dia. Não acrediteis no companheiro, não ponhais a confiança no amigo”. Terrível, esse alerta! Prova-nos a quanto chegou a degradação humana, a ponto de nos precavermos em nossas relações e pormos em dúvida até a virtude de nossas amizades. Verdadeira ou falsa? A desconfiança corrói o relacionamento humano. E aprofunda essa corrosão levando-a para o âmbito familiar. É aterrador, mas real. “Conserva a boca fechada ao lado daquela que dorme contigo, pois o filho insulta o pai, a filha se ergue contra a mãe, a nora contra a sogra, os inimigos de uma pessoa são os da própria casa”. Só mesmo numa família solidamente constituída com valores e princípios morais e religiosos poderemos encontrar alguma exceção. Coisa rara em nossos dias. Mas o profetismo é ainda uma dimensão de fé. Ele continua em nossos tempos, não apenas nos apontando novos caminhos, como também alimentando nossa esperança. Foi essa a conclusão de Miquéias: “Mas eu me volto para o Senhor, espero em Deus, meu Salvador, e meu Deus me atenderá”. Essa é a certeza dos que acreditam. Não há no mundo situação de injustiça impune aos olhos de Deus. As leis humanas, falhas e morosas em suas sentenças, ainda titubeiam na prática da justiça. Quando aquela e aquele com quem partilhamos nossa existência são capazes de nos extorquir ou acusar-nos diante das sectárias leis dos homens, Aquele que tudo vê e tudo pode há de restaurar sua sentença, dia mais, dia menos, conforme suas Promessas. Jesus não conseguiu ser profeta em sua própria terra, dentre aqueles que sempre amou, os de seu próprio sangue. Mesmo assim, venceu todas as ciladas que lhe armaram – até a própria morte – e refez o caminho com a humanidade, naquela estrada de Emaús. Nesse novo caminho, recordou: “Como vocês custam para entender, e como demoram para acreditar em tudo o que os profetas falaram!” (Lc 24, 25). Hoje, meu nome é Miquéias. WAGNER PEDRO MENEZES wagner@meac.com.br

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