O SOFÁ DE OURO

A queda do ditador líbio Muammar Gaddafi revelou ao mundo um exótico sofá dourado, em forma de sereia. Diziam fazer parte de seu mobiliário, cujo acervo portentoso e valiosíssimo bem combina com o luxo, a ostentação, a disparidade econômica sempre presente em qualquer regime ditatorial, autocrático ou absolutista. Da mesma forma se encontraram pias e banheiras de ouro nos aposentos de Saddam Russein, pares de sapatos aos milhares na mansão da primeira dama Imelda Marcos, nas Filipinas, quadros valiosíssimos com o ex-banqueiro ítalo brasileiro que bem conhecemos, saques de guerra que constituíam verdadeiras fortunas e davam sustentação ao auto coroado imperador Napoleão Bonaparte… E outros mais. Ah, Rainha de Sabá! Como foi longe sua escola! Ali Babá e os quarenta ladrões ainda afrontam o mundo com seus sonhos de poder atrelados ao luxo, às riquezas da usurpação, às mordomias subsidiadas pelo povo. Voos cegos do poder, mesmo quando o veículo é um simples helicóptero no meio dessa selva ou um jatinho em direção às ensolaradas praias da vida… Até quando o mundo verá tais descalabros? “Mas ele não é qualquer pessoa”, sentencia um deles. Sim, talvez haja uma diferenciação. O que salta aos olhos de qualquer plebeu é a disparidade de um poder megalomaníaco, sobre nações onde a desigualdade, a saúde da população, a miséria e a fome fazem vítimas aos borbolhões, enquanto seus mandatários se esbaldam com aquilo que é público. Mesmo Salomão, conhecido historicamente por seus palácios, sua riqueza e seu poder sobre as nações, além de seu tino administrativo recheado de vitórias e conquistas, deixou em sua biografia a marca da justiça acima de tudo. Foi o rei da sabedoria, que soube conduzir seu povo à glória entre todas as nações da época. Poder e glória não se conquistam sobre a miséria e a injustiça! Nenhuma nação será reconhecida como próspera e abençoada quando seu povo padece sob os descalabros do mando e desmando, do autoritarismo puro e simples de governantes inescrupulosos. Dia mais, dia menos, a ruína virá. O que mais assusta nestas histórias é seu custo social. As ruínas dos regimes ditatoriais, das democracias de fachada e dos reinados opressores não são seus palácios escancarados pela revolta popular, mas a certeza de que um dia cairão, desmoralizados, ridicularizados, pois que nenhuma injustiça praticada com os braços do aparente poder humano prevalecerá para sempre. Hão de cair, pedra sobre pedra, diante do ridículo que representam. Isso a história nos prova. O sofá de Gaddafi – esse moderno remanescente dos regimes mantidos a ferro e fogo – é mais um símbolo canhoto do grotesco e falível poderio humano. Curioso é o simbolismo dessa peça de mau gosto e desconfortável, que homenageia a filha do ditador nos traços daquela sereia. Triste pai, triste filha. Nem este, nem aquela sabem quão delicioso é repousar a cabeça num simples travesseiro de penas, de painas, mas dormir o sono dos justos, sem as sereias das ilusões humanas, sem o ouro de suas ambições desmedidas. Que não se iludam os que assim constroem suas vidas, cegos pelos sonhos de poder e alheios à soberana Justiça. Não importa quão grande ou irrisória é sua sede de poder. Atente para sua vulnerabilidade, sua transitoriedade. Ninguém constrói uma vida sólida, um nicho de poder e glória sobre os alicerces da injustiça, da ganância e exploração do outro. Pois o absolutismo do poder humano só é real quando vindo do alto, predestinado, abençoado por Deus. Esse, sim, seja em qualquer estágio ou abrangência, será reconhecido e terá sua história selada pelas graças de Deus e unção do povo. Ou, se preferir, pelas graças do povo e unção de Deus. Merecerá seu descanso em sofás dourados, na eternidade. WAGNER PEDRO MENEZES wagner@meac.com.br

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