Permanecer no amor

“Eu sou amado?” Dizem que esta pergunta já está no coração de cada ser humano ao nascer. Ser amado, sentir-se amado é uma necessidade básica em cada pessoa, tão básica quanto sentir fome, sede, frio, necessidade de proteção etc. Mas mesmo depois que crescemos, a pergunta “Eu sou amado?” costuma nos acompanhar. Por isso, é importante revisar a nossa história de vida e nos perguntar: que resposta eu recebi das pessoas que me criaram quando perguntei “Eu sou amado?” A experiência que fizemos do amor do nosso pai, da nossa mãe ou da pessoa que nos criou influencia a maneira como nos sentimos amados hoje, assim como também influencia a maneira como amamos os outros. Porém, a Palavra de Deus hoje está nos convidando a ir além do amor que recebemos daqueles que nos criaram, para beber da fonte d’Aquele que é Amor, Ele que nos amou primeiro, o próprio Deus: “Nisto consiste o amor: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi ele que nos amou…” (1Jo 4,10). Portanto, a pergunta que todos nós trazemos de fundo (“Eu sou amado?”) só pode encontrar resposta no Deus que “nos escolheu antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis diante dele no amor” (Ef 1,4). Se a Escritura afirma que “Deus é amor” (1Jo 4,8), devo tomar consciência de que quando estou diante de Deus, na oração, estou diante do Amor que me amou primeiro, do Deus que me ama incondicionalmente, sem exigir que primeiro eu seja justo, santo, bom, para depois ser merecedor do Seu amor. Jesus nos convida a permanecer no seu amor, no amor que Ele recebe do Pai, no amor que sempre alimentou e sustentou sua vida de Filho. O que significa “permanecer no amor de Jesus”? Ele mesmo responde: “Se vocês guardarem os meus mandamentos, permanecerão no meu amor… Este é o meu mandamento: amem-se uns aos outros como eu os amei” (Jo 15,10.12). Em outras palavras, Jesus nos convida a passar da pergunta “Eu sou amado?” para a pergunta “Estou disposto a amar?” Estou disposto a amar, numa época em que o mal cresce a tal ponto no mundo que esfria o amor no coração de muitas pessoas (cf. Mt 24,12)? Estou disposto a amar, apesar das decepções que já sofri com o amor das pessoas? Estou disposto a permanecer no Amor que é Deus, mesmo quando esse Amor não impede que coisas ruins me aconteçam, ou aconteçam com aqueles que eu amo? Estou disposto a amar como Jesus me ama – “Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13,1) –, ou estou disposto a amar somente até que eu me canse e me decepcione com as pessoas? Por providência de Deus, justamente neste dia em que a Palavra nos fala do amor de Jesus, de Deus como Amor, nós celebramos o dia das mães. Assim como Deus, a mãe ama o filho não porque ele merece, mas porque ele precisa ser amado. Como diz um poema, o filho a quem a mãe mais ama é aquele que está doente, até que sare; aquele que partiu, até que volte; aquele que se perdeu, até que se deixe encontrar… Se, por um lado, temos mães que amam seus filhos sem eliminar da vida deles a necessidade da disciplina, do senso de responsabilidade, da ética, dos limites, do valor do sacrifício, por outro lado temos mães que confundem amor com excesso de proteção e de carinho, buscando poupar seus filhos de todo tipo de dor, de problema, de desafio, contribuindo para que seus filhos cresçam como adultos infantilizados, como pessoas incapazes de lidarem com a vida, pessoas que estarão dispostas a amar somente enquanto seus caprichos forem atendidos, até que não seja exigido delas algum tipo de sacrifício para que aquela relação amadureça e dê frutos. Hoje trazemos novamente nossos ramos adoecidos pela infertilidade, aquela área da nossa vida onde desistimos de amar; trazemos nossa pergunta de fundo (“Eu sou amado?”) e a colocamos diante do Deus que é amor, do Deus que nos pergunta: “Você está disposto a amar, a amar como meu Filho, até o fim, independente se o seu amor será reconhecido, correspondido, se colherá os frutos (resultados) que você está esperando?” Hoje, mães e filhos, trazemos ao altar a história de vida de nossa família, e nos comprometemos a permanecer no amor de Jesus, amor que “tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (1Cor 13,7), amor que “tudo ensina, tudo vê, tudo restaura, tudo conforta” (música Permanecer no Amor, Banda Dom). É permanecendo neste Amor que produziremos frutos, frutos que permanecerão, conforme a promessa de Jesus (cf. Jo 15,16). Missa do 6o. domingo da Páscoa. Atos do Apóstolos 10,25-26.34-35.44-48; 1João 4,7-10; João 15,9-17 Padre Paulo Cezar Mazzi

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