QUALQUER COISA E NADA

Todo início de ano vasculho minhas gavetas e as reordeno eliminando as crostas acumuladas no ano que se foi. Agora também estendo essa prática ao meu computador, entulhando as pastas de lixo e exclusões e tentando dar um caráter de ordem aos arquivos ou e-mails recebidos. Impressionante como acumulamos tranqueiras, coisas desnecessárias! Aqui, por exemplo, um exemplar de Seleções do Reader`s Digest de 1960, um velho disco em carnaúba, de 79 rpm, uma caixa de rótulos de bebidas…. Epa, esta é preciosa! Abro-a cuidadosamente, pois tenho a intenção de escanear todos os rótulos ali guardados. É que, durante minha infância, meu pai foi um pequeno fabricante de bebidas. Tudo agora se resumia àquela caixa de rótulos. A genialidade e criatividade do meu falecido pai já se revelavam no primeiro rótulo: Caninha Qualquer Coisa! Não foi seu maior sucesso de vendas, devo admitir, mas deu-nos alguns trocados. Afinal, nem o bebum mais inveterado gostaria de beber qualquer coisa… Bebe-se um rótulo, uma marca, algo que se identifique com a personalidade, o status, as exigências sociais dos amigos de copo, de trago, de alegrias ou infortúnios… Mas há também os menos exigentes, aqueles para os quais, no dizer do meu pai “qualquer coisa é melhor que nada”. Então devolvo à gaveta a preciosa caixa de rótulos, pois neste ano ainda hei de postá-los no meu blog, podem crer! Mas qualquer coisa ainda me diz que daquilo que consideramos lixo, entulho para nossas vidas prazerosas, cercada dos brilhos da modernidade, do conforto, da moda é que muitas vezes retiramos preciosos tesouros. Até lições de profundos valores morais ou filosofias de vida que nos dão o que pensar. Por exemplo: qualquer coisa é melhor que nada. Olhos atentos e senso de praticidade são os instrumentos de sobrevivência de muitos catadores de lixo nas periferias de nossas cidades. Conheço muitos destes, verdadeiros artistas, cujas fontes de matérias primas são exatamente os lixões e aterros sanitários que nossa sociedade de consumo sem freios, insaciável, faz proliferar ao largo de seus domínios de progresso. Lixões para alguns, fonte de riquezas para muitos. “Encham-se os nossos celeiros de frutos variados e abundantes, multipliquem-se aos milhares nossos rebanhos, por miríades cresçam eles em nossos campos, sejam fecundas as nossas novilhas” (Sl 143,13). Que tudo se realize! Que nossos sonhos sejam reais! Pois a genialidade e criatividade de nosso Pai são maiores que qualquer coisa, mais prodigiosa que as pequenas aspirações de pobres almas que se saciam com as riquezas dos lixões mundanos. Infelizes somos nós, que nos contentamos com pouco, que não penetramos nos mananciais da Sabedoria divina, a nos oferecer muito mais. “De onde vem, pois, a sabedoria? Onde está o jazigo da inteligência?” (Jó, 28, 20). Aqui é que são elas. Em vida, entulhamos nossa existência com teorias e definições próprias, que embriagam mente e coração, obscurecem nossa visão do Pai, o criador de qualquer coisa, de tudo. Preferimos nossa vã sabedoria. Preferimos nossa visão do nada, da insignificância que nos rodeia, à maravilhosa compreensão de que nada temos, nada somos sem o rótulo divino, o selo que nos identifica no mundo como imagem e semelhança de sua generosidade, seu amor. Ninguém é capaz de reordenar sua vida, passado ou presente, sem selecionar em seu coração o respeito e a gratidão pelas riquezas herdadas do Pai. Essas nunca estarão nos lixões que produzimos. “Há lugares de onde se tira a prata, lugares onde o ouro é apurado” (Jó 28,1). Essas riquezas só nos pertencerão quando a sabedoria da fé deixar o trivial do nosso dia-a-dia e se tornar essencial na nossa vida. Então, sim, poderemos arquivar os muitos rótulos que ostentamos na vida. WAGNER PEDRO MENEZES wagner@meac.com.br

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