Renúncia também é sacrifício

A renúncia de Bento XVI divide opiniões. Uns contra, outros a favor. No time dos contra estão aqueles que não compreendem ou não comungam com as responsabilidades de um timoneiro que tem às mãos um barco, tripulantes e passageiros em busca de um porto seguro. No time a favor, além dos que enxergam horizontes sombrios, também viajam conhecedores das águas profundas. Lá a pesca é farta. Posto esta metáfora, vamos por partes na navegação que se nos apresenta. Certamente, com muita clareza de espírito e lucidez diante da realidade, Bento XVI compreendeu seus limites e viu ser chegada a hora de confiar seu barco a um comandante mais saudável. Que a borrasca de um mundo em reboliço assola intempestivamente a barca de Cristo, não há como negar. As exigências de uma sociedade em mudanças trôpegas, cuja velocidade vai contra a capacidade de adequação de muitas tradições seculares, especialmente aquelas de cunho moral, familiar e ou religiosa, exige um timoneiro audaz, intrépido em suas decisões. Não que o Papa renunciante tenha se sentido incapaz, pois que até então suas decisões e convicções mostraram total coerência com a doutrina que defende. Seu pulso firme não titubeou diante das posições que bem defendeu. Há, no entanto, um futuro que exigirá muito mais, em especial lucidez, serenidade, ousadia de quem conduz esse barco. Então, aqueles que são do contra, que levam a vida no oba-oba, que enxergam só fraqueza num ato de renúncia, hão de dizer que o Papa se acovardou. Certamente – e aqui me coloco no lugar do Papa – sua maior oração nestes dias de calvário pessoal foi a mesma de Cristo: “Senhor, se possível, afasta de mim esse cálice”. Penetrar nesse mistério é compreender a vontade de Deus acima de tudo. Senhor, se sou pequeno e fraco, poupe-me – poderia dizer. Pois que renúncia, antes de ser qualquer atitude de covardia ou fraqueza humana, é também e sobretudo, sacrifício. Uma grande lição de humildade. Sacrifício lúcido de quem enxerga os próprios limites e se sobrepõe à vontade pessoal, reconhecendo em si a insignificância da natureza humana. O Papa percebeu ser pequeno frente aos desafios da tempestade iminente. “Todavia, não se faça como eu quero, mas como tu queres”, completaria à maneira de Jesus. Com certeza, Deus o quer na retaguarda, qual Moisés que, depois de conduzir o povo de Deus durante anos pelo deserto, terminou seus dias de braços abertos sobre o monte, em oração contínua. A um novo irmão, eleito e conduzido pela unção divina, se confiou as lutas e vitórias do Povo de Deus. Essa renúncia é profética. Prevê os grandes embates que a Igreja tem pela frente e a necessidade de lucidez de seus líderes. Depois de seiscentos anos sem fato semelhante, quando a Igreja evoluiu à luz de muito progresso e descobertas extraordinárias da humanidade, eis que chegamos numa encruzilhada: ou se aceita ou se enterra de vez as revelações da fé cristã. Não podemos negar a necessidade de punhos fortes nesse momento histórico. O profetismo de Bento XVI está na soma de forças para conduzir sua Igreja aos campos da Terra da Promissão, o mundo justo e harmonioso que todos desejam. Não basta um Papa na ação radical e heróica para defender os caminhos que julga mais sensatos, serenos, certeiros. Agora teremos dois, um na ação e outro na oração. Poderia tomar para si as palavras de Moises: “Deus suscitará no meio de vossos irmãos um profeta, que será como eu: é a ele que escutareis!” A conclusão é óbvia. Mais óbvia por ser a mesma de uma carta de Pedro, o primeiro timoneiro da fé cristã. “Vós, pois, caríssimos, advertidos de antemão, tomai cuidado para que não caiais da vossa firmeza, levados pelo erro dos homens ímpios. Mas, crescei na graça e no conhecimento de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo” (II Ped 3, 17). WAGNER PEDRO MENEZES wagner@meac.com.br

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