SERVIÇO INÚTIL

Nada do que fazemos acrescenta algo à glória de Deus. Mas tudo o que somos, sim. Até nossa servidão aparentemente inútil. Inútil diante de Deus, mas extremamente necessária para nosso histórico de vida, nossa própria glorificação. O jogo de palavras complica mais do que explica, mas logo adiante virá a compreensão. É que somos tentados a fazer de nossa existência uma contínua competição com o outro, achando sempre que o que somos ou fazemos é mais perfeito e útil do que a tarefa, profissão ou vida dos que concorrem conosco. Assim, na nossa avaliação pessoal, nunca seremos servos inúteis de Deus. Triste engano!

          Na escala social que ocupamos raramente daremos oportunidade a um empregado de sentar-se à mesa conosco. Entretanto, esse é o primeiro grande convite que Deus nos faz, no banquete do Reino. Esse mesmo banquete já pronto e carinhosamente preparado a nos esperar no definitivo encontro com nossa própria origem e para o qual só nos basta apresentar nossas obras, nosso serviço prestado junto aos semelhantes. Portanto, o que importa a Deus não são nossas conquistas materiais e sucessos empresariais, intelectuais ou alhures, mas somente a grandeza do serviço que prestamos aos nossos semelhantes. Tudo mais não conta pontos, nem nos dignifica. O progresso material, ao contrário, terá sempre um peso maior no processo de nosso julgamento. Assim também o sucesso ou não de um governante, um gestor público ou político.

          Nada do que faz um bom administrador terá méritos dignificantes, se não houver maiores serviços de promoção humana do que simples conchavos de interesses sociais ou político-partidários. Um homem público não trabalha para si, mas para o bem comum. Seu serviço não pode nunca alimentar interesses setoriais e deixar de lado as primárias necessidades do coletivo. Qualquer função político-social e religiosa que se preste ao povo tem que possuir, por primeiro, essa dimensão de serviço. Caso contrário, será sempre um serviço inútil, sem valor algum aos olhos de Deus. Lembrando sempre que toda e qualquer função pública ou autoridade constituída diante do povo, procede de Deus, foi-lhe concedida do alto, com as bênçãos e concessões do povo. Assim, podemos afirmar: o poder emana do povo, mas com o consentimento de Deus.

          Essa visão transcendente da autoridade humana é que dá legitimidade à ação democrática. Sem a aprovação popular e a unção divina, estaríamos sob a ação de um regime ilegal, uma usurpação de direito, um serviço ilegal, inútil aos olhos de Deus e do povo. Por isso a legitimidade democrática tem um quê de religiosidade e merece respeito. Por isso é que dizemos, sem sombra de dúvidas, que todo poder procede de Deus. Não é e não pode ser um serviço inútil diante do povo, que escolhe e acolhe aquele que vai lhe prestar um serviço comunitário legítimo e, oxalá! – abençoado. Por isso é que também dizemos que todo povo tem o governo que merece… Tomara!

          Também no campo pessoal e na administração de nossas próprias vidas devemos ter presente essa consciência da responsabilidade de nossos atos. Somos meros servidores no processo da criação de um mundo em contínua evolução. Nada do que somos ou temos acrescentará algo à grandeza e beleza de tudo que o Senhor criou. Ele não necessita de nossa insignificância, mas aceita nossa gratidão e louvor. No entanto, sem solidariedade e gestos de fraternidade entre nós, sem nosso serviço de promoção aos mais desvalidos na caminhada, seremos mais do que inúteis aos seus olhos, pois sequer o que “devíamos fazer”, o fizemos. Faça sua escolha com esses critérios.

WAGNER PEDRO MENEZES
wagner@meac.com.br

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