UM SÓ CORPO

A solenidade de Corpus Christi é excelente oportunidade para se pensar na unidade dos cristãos. Infelizmente, ocorre exatamente o contrário. Enquanto daqui se exalta os mistérios da fé eucarística como exclusividade católica, de lá se exibe o purismo bíblico como realidade evangélica. Aqui estendemos tapetes num grito triunfal constante a ecoar em nossas ruas e avenidas. Acolá se enchem estádios, numa espécie de espetáculos circenses. Medem-se forças, não a verdade da fé cristã.

Eis a fé sem mistérios! A competitividade entre denominações cristãs nesta data se acentua ano a ano. O contrário seria muito mais produtivo, se quiséssemos realmente mostrar ao mundo a beleza dos ensinamentos cristãos. Senão, vejamos o significado primeiro da verdadeira comunhão, cerne do mistério eucarístico. O mais expressivo desejo de Cristo, em sua agonia na perspectiva do calvário, foi exatamente a questão da unidade. Ah, que todos sejam um, como o Pai e eu, disse quase num desalento. Nesse desabafo do Mestre encontramos não só um desejo, um sonho… Sua capacidade de olhar os fatos e conhecer os meandros da realidade tinha ali um quê de decepção. Jesus antevia as divisões que maculariam o testemunho do povo eleito.

Como, então, reverter essa história? Compreendendo a simplicidade desse mistério. O alimento que nos deixou Jesus foi sua vida, para celebrar “a nova aliança em meu sangue, que é derramado por vós…” (Lc 22,20). O alimento gera a vida. Quando ingerimos um alimento, ele se torna parte do nosso organismo, da nossa vida. Mas se este alimento não for saudável, o próprio organismo se encarrega de expulsá-lo, rejeitá-lo através do vômito ou mesmo da evacuação fecal. A natureza age com simplicidade, não complica na ação de constante transformação que o corpo sadio processa diariamente. Tudo o que entra pela boca humana terá uma função vital na manutenção da saúde e da vitalidade do indivíduo ou, se tóxico e inadequado, na rejeição deste.

Se assim acontece no campo biológico, como seria no campo espiritual ou mesmo intelectual? Quando Jesus afirmou ser “o pão da vida”, referia-se exatamente a esse mistério da unidade eucarística. Sua presença física entre nós, por si só, já era um grande mistério, “o pão vivo que desceu dos céus”, o novo maná que dava vida ao mundo. Agora, quando pronunciava seus adeuses e despedidas naquela “noite traiçoeira” da vingança humana sobre sua doutrina, o Mestre ansiava pela unidade “daqueles que o Pai me dera”. Como alimento Ele se oferecia. Como fonte da vida se apresentava aos seus. Mesmo assim, naquela mesa nem todos compreenderam o mistério de suas revelações. Alguém discordava. “Eis que a mão de quem me trai está à mesa comigo”, disse Jesus, denunciando divergências em seu colégio apostólico. A traição de Judas minou e destruiu o princípio de unidade naquela mesa…

Por essa e outras é que temo pelas divergências na caminhada cristã. Em especial dentro do seu Corpo Místico, a Igreja. Negar o princípio eucarístico é, mais uma vez, negar Cristo e sua verdade. É entregá-lo aos algozes deste mundo. Um alimento foi, é e sempre será sinônimo de vida. Quando Jesus se apresentou como tal, fez-se fonte de nova vida, tornou-se “principio e fim” da plenitude de vida que a humanidade deseja. Por essa e outras é que nossa falta de unidade ainda é “escândalo para o mundo” e por essa vergonha muitos padecem. Morremos espiritualmente conquanto temos à nossa frente, bem às fuças da nossa ignorância evangélica, uma mesa posta, farta, riquíssima e bela, para saciar a fome de vida, da verdadeira vida com a qual sonhamos. A mesa da unidade cristã é a tábua da salvação deste mundo famélico. Ali o pão da vida sacia a fome de Deus que temos.

WAGNER PEDRO MENEZES
wagner@meac.com.br

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