UM TÚMULO VAZIO

UM TÚMULO VAZIO
A simples visão de um túmulo é sempre algo desagradável. Mais ainda quando o encontramos de portas abertas, escancaradas, à espera de um novo hóspede. Pior ainda quando o percebemos vazio, novinho em folha, como se fosse uma encomenda nossa, pronta a receber alguém que amamos. E, o mais lastimável, saber que aquele em especial era provisório, emprestado por um amigo da família, que deveria ser devolvido tão logo se encerrassem os festejos da “passagem do Anjo da Morte”, o momento que o povo celebrava enquanto uma família chorava a “passagem” de um dos seus… Mas o túmulo agora estava vazio! Quem roubou o corpo do Mestre?
Essa era a situação ao redor da sepultura de Jesus naquela manhã do Domingo de Páscoa ainda judaica. Enquanto o povo israelita celebrava o dia de sua libertação do jugo do Egito, alguns poucos seguidores do mestre cristão ainda choravam sua morte de cruz. Alguns familiares e amigos se dirigiam ao túmulo provisório para as providências necessárias a um sepultamento definitivo; mas eis que encontram um túmulo vazio!
Pedro constatou o problema, mas Madalena seria a primeira a desvendar o enigma. O Senhor que lhe dera tantas e tantas provas de sua missão divina, que se dissera ser a “Ressurreição e a Vida”, que tirara do túmulo o amigo Lázaro, que devolvera esperança e dignidade a tantos cegos, aleijados e mudos, que se apiedara da viúva de Naim e lhe devolvera da morte o único filho, que saciara a fome e a sede de centenas e restaurara o sentido da vida a outras centenas de desiludidos e desesperançados, como ela… Ah! Madalena se negava a aceitar aquela situação de morte, aquela nova desilusão em sua vida, a morte Daquele a quem dissera com o coração aberto e maravilhado: “Meu Senhor e meu Deus!”
Então, após sua primeira aparição, aquela maravilhosa manifestação de poder e glória, saiu em disparada até os seus, gritando e exclamando: “Eu vi o Senhor, eu vi o Senhor!” Essa é a plenitude das revelações. Constatar um túmulo vazio e logo após compreender sua transitoriedade, seu significado inútil e passageiro diante da imortalidade da alma e da superação dos limites terrenos é o maior estágio que uma revelação de fé pode alcançar. Vida ressurrecta não ocupa os túmulos da vida carnal. É vida nova em Cristo. É o mais elevado estágio da plenitude existencial que se pode alcançar neste mundo. “Se Cristo não ressuscitasse nossa fé seria vã”, diria o apóstolo convertido, aquele que deixara de lado o vazio de sua incredulidade pagã para se revestir do escudo da imortalidade cristã. Isso é viver a plenitude da fé. Isso é entender a vida como força única do amor divino, gerado no amor e não criado na matéria apenas, tal qual Cristo em sua passagem terrena, que ressurgiu dos mortos para nos restaurar a vida plena. O rito da páscoa judaica ficou na lembrança, na celebração de um acontecimento histórico, conquanto o rito da páscoa cristã não é uma “recordação” do passado, mas uma “renovação” do presente que precisamos aprimorar. Paulo descobriu isso em sua vida: “Já não sou eu quem vivo, é Cristo que vive em mim”. Essa é a descoberta que nos falta para bem vivenciarmos nossa Páscoa.
Imaginemos aquele túmulo vazio que o amigo Arimatéia emprestou momentaneamente e se tornou prova da glorificação cristã. Não era mais do que um buraco cavado na rocha. Assim construímos os túmulos que nos sepultam em vida, indiferentes aos mistérios que nos cercam, pois a realidade nos apresenta apenas o pó que ainda somos. Mas vencer o sepulcro das nossas falácias e derrotas existenciais é preencher os vazios da nossa incredulidade. É sair da inercia de uma fé sem ação e gritar ao mundo a verdade que nossa “passagem”, nossa Páscoa definitiva revela ao mundo: “Ressuscitou! Ele não está aqui”, está escrito no túmulo vazio da velha Jerusalém.

WAGNER PEDRO MENEZES
wagner@meac.com.br

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