UMA CONCORRÊNCIA INACEITÁVEL

O pobre é um concorrente que incomoda. Mas não admitimos essa verdade. Na realidade, preferimos ignorar a admitir. Nesse quadro de insana e extrema ignorância social, a fome é fato inadmissível. “Uma carência grave e prolongada da alimentação provoca a debilidade do organismo, a apatia, a perda do sentido social, a indiferença e, por vezes, a hostilidade em relação aos mais frágeis: em particular as crianças e os idosos“ (TB 67). É preferível, pois, fechar os olhos para essa realidade social do que enfrenta-la como parte dos muitos problemas que já temos, tais quais a violência doméstica, social e a perda do sentido da vida. E nunca admitirmos ser tudo isso uma consequência da fome. Como provação, a fome ainda é uma experiência desconhecida para muitos de nós, brasileiros privilegiados. “Jesus jejuou durante quarenta dias e quarenta noites e, depois disso, teve fome” (Mt 4,2) E você, já passou fome alguma vez? Sabe o quanto dói, o quanto revolta? É dessa experiência de dor e abandono que, voluntária ou involuntariamente, necessitamos provar para reavaliar a dignidade perdida também voluntária ou involuntariamente. Uma experiência de fome nos leva a rejeitar situações de injustiça. “Uma consequência quase ignorada é o aumento da criminalidade” (76). Não há como negar essa relação, como também a falta de vontade política e social para se encarar de frente essa questão. Já dizia Betinho, grande ativista e sociólogo brasileiro, “quando havia 32 milhões de famintos no Brasil” (anos 90), que “a alma da fome é política” (78). Não podemos negar que “a responsabilidade maior por enfrentar e solucionar os problemas da miséria e da fome pertence ao poder público” (83). Mas igualmente não podemos negar que “aquilo que descartamos ou desperdiçamos é, precisamente, o que falta à mesa dos famintos e miseráveis” (89). Somos responsáveis comunitariamente. “Nessa educação para vencer a fome, como se tenta vencer a doença ou a ignorância, é importante que todos sejam sensibilizados” (93). Muitos são os projetos, instituições e movimentos sociais voltados para essa área, mas a indiferença social ainda se constitui um obstáculo vergonhoso. “Sente-se, contudo, a ausência no cenário brasileiro, dos Bancos Éticos, aqueles que conectam poupadores e investidores que querem transformar o mundo (100)”. A economia solidária é um sonho bonito. Mas não sai do papel. A economia de comunhão, nascida no seio do catolicismo, ainda engatinha. A economia de Francisco e Clara, projeto recente do Papa Francisco, está em fase de gestação, buscando envolver jovens de diferentes crenças ou nacionalidades. Muitos outros grupos se somam a essa tomada de consciência de que “quem tem fome, tem pressa”; de que só se constrói uma sociedade justa e humana a partir dos nossos conceitos de justiça e humanidade. O mundo que nos rodeia tem a nossa cara, é retrato do que somos. Mas os ensinamentos cristãos continuam válidos. “Onde todos são irmãos não há lugar para a fome”, diz um subtítulo do texto-base dessa CF. Causa e consequência da ação de Cristo em nosso mundo. Razão de sua vida! De nosso existir como nação, como povo escolhido e abençoado por Deus. Moramos numa pátria amada. “Brasil, terra rica, bela e abundante, cheia de um povo bom e solidário, não se parece como Reino desejado por Deus, e apresentado por Jesus. Aqui, nem todos têm vida em plenitude! Ainda não somos verdadeiramente irmãos e irmãs! Nosso País não é ainda nossa Casa Comum! Não formamos uma só família, dos filhos e filhas de Deus. Se assim fosse, a ganância, o individualismo, o domínio dos interesses individuais e, sobretudo, a fome não existiriam entre nós, ceifando vidas” (112). Todavia, ainda somos um povo de fé. Como bem disse, um dia, Dom Helder em sua voz profética: “Se eu tenho fome, o problema é meu, Se meu irmão tem fome, o problema é nosso”.

WAGNER PEDRO MENEZES
wagner@meac.com.br

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